| Por
Danilo Vital, especial para a GE.net
O dia 12 de junho de 2008 ficou marcado para o lateral-esquerdo
brasileiro Roger Guerreiro como a data de sua consagração.
Disputando a Eurocopa depois de se naturalizar polonês
às pressas, em processo que contou com o apoio até do
presidente Lech Kaczynski, o jogador fez o único gol
da seleção na competição, no empate em 1 a 1 frente
à anfitriã Áustria. Após o jogo, Roger ainda seria considerado
o melhor em campo pela UEFA.
Para tanto, o brasileiro precisou passar por grande
mudança em sua vida. Marcado como vilão do Corinthians
por conta da expulsão nas oitavas-de-final da Copa Libertadores,
em partida frente ao River Plate em 2003, Roger Guerreiro
teve de lutar para se reerguer no Flamengo e, depois
de rápida passagem pela Espanha, acabou aceitando o
desafio de trocar o Juventude, de Caxias do Sul (RS),
pelo obscuro futebol polonês.
De férias em São Paulo após a eliminação da Polônia
na primeira fase da Euro, Roger colhe os frutos da mudança
que deu outros caminhos à sua carreira. Em entrevista
exclusiva à GE.Net, o brasileiro avaliou
sua ascensão, falou sobre seu dia-a-dia no leste europeu,
disse que preferiria voltar a jogar no Flamengo do que
no Corinthians e confessou que se imagina enfrentando
a seleção brasileira e até fazendo gol em uma Copa do
Mundo.
Foto Marcelo Ferrelli/Gazeta
Press |
 |
Você começou no futebol brasileiro, teve passagem
pela Europa, na Espanha, voltou para o Juventude e hoje
está na Polônia. Como é que foi essa transição para
você?
Roger: Confesso que, quando surgiu a proposta
pra ir para a Polônia, eu não sabia nem que tinha futebol
por lá. Tanto que eu pedi para ir conhecer o clube e ver
a estrutura para depois poder assinar o contrato. Então
conheci, vi que o clube tinha condições e acabei aceitando
esse desafio de ir jogar lá.
E a adaptação à cultura? O que te chamou mais
a atenção no dia-a-dia na Polônia?
Eu cheguei à Polônia com a temperatura de 25 graus negativos,
então o frio e a língua realmente foram as coisas mais
difíceis. Com uma semana de treino eu pensava: ‘pô,
o que eu tô fazendo aqui com esse frio?’. Mas,
graças a Deus, hoje consegui me adaptar legal e estou
muito feliz por lá.
Como você fez para se adaptar à língua? Você
já está falando bem ou precisa de um intérprete?
Eu tenho a ajuda de uma mulher. O nome dela é Ágata
e é uma polonesa que fala muito bem o português e me
ajuda em tudo o que eu preciso. No começo, precisava
muito mais, mas hoje em dia já me viro bem no polonês
e no inglês. Sempre que eu preciso, ligo pra ela. Lembro
que, no começo, eu ia comer e ligava pra ela pedir a
comida; ia na farmácia e ligava pra ela; tudo eu ligava
pra ela. Hoje consigo me virar legal.
Você passou por alguma saia-justa, algum problema
ou situação engraçada enquanto se adaptava?
Teve uma situação, quando eu estava até com uns amigos
do Brasil lá e um deles queria um remédio para poder
ir ao banheiro. Ele estava com o intestino preso e uma
ferida na boca, queria uma pomada e um remédio pra ir
no banheiro, um laxante. Nós não sabíamos como pedir
isso e eu tentei ligar para a Ágata, mas ela não atendia.
Aí um olhou para o outro e falamos: ‘pô, vamo lá tentar
fazer isso’. E aí foi na base do gesto, apontando para
a boca e apontando para barriga, fazendo mímica para
dizer que queria ir no banheiro. Na hora, o farmacêutico
deu risada, mas no final acabou entendendo direitinho.
Você levou a família ou está morando sozinho
na Polônia?
Eu fui sozinho e, durante o ano passado, morei com uma
namorada brasileira por um ano lá. Hoje, vivo sozinho
de novo, mas já levei meus familiares para conhecerem,
passarem férias lá.
É verdade que você tentou ensinar aos poloneses
a driblar? Eles que te pediram?
Foi uma matéria que uma revista fez porque lá o futebol
é muito de contato físico, muito truculento e eu me
considero um jogador técnico. No campo, dando algum
drible e fazendo alguma coisa diferente, a torcida já
vai à loucura. Então, pelos meus jogos chegaram e pediram
para eu fazer, depois do treino, uns dribles para mostrar
na revista. Mas nada comparado aos craques como Robinho
e Ronaldinho, que fazem malabarismo com a bola.
O seu processo de naturalização ganhou uma
importância grande, foi até agilizado. Como é que você
lidou com essa decisão, no momento que decidiu aceitar?
A partir do momento que eu resolvi aceitar, fiquei na
torcida para que desse certo o quanto antes, porque
o treinador da seleção queria me utilizar na Eurocopa.
Por isso, foi esse processo rápido. Eu juntei todos
os documentos e fiquei naquela ansiedade, porque a partir
do momento que eu aceitei, tinha aquele desejo, aquela
vontade de defender a seleção polonesa. E, graças a
Deus, contei com a ajuda do governo polonês, do presidente
e do primeiro ministro. Todos se uniram para que desse
tudo certo, e assim foi.
A possibilidade de jogar a Eurocopa foi o
principal fator na sua decisão?
Com certeza. Na verdade, eu acho que foi um conjunto.
Para a minha vida profissional, acho que ajudou muito
estar com um passaporte europeu e ter defendido a seleção,
mas creio que não teria aceitado se não estivesse em
um momento muito bom na Polônia. Eu me sinto muito bem
lá, sou muito querido pelos torcedores do Legia e pelos
torcedores em geral. Há um respeito e um carinho por
mim, então foi esse conjunto de fatores que determinou
a minha decisão.
Houve algum tipo de resistência, por parte
da torcida ou dos jogadores, quanto à sua naturalização?
Não, resistência eu creio que não. Quando tem um assunto
desses é sempre uma polêmica, então foi discutido bastante,
até em programas de televisão lá. Tinha gente contra
e gente a favor, e isso eu acho que é normal. Mas, no
decorrer dos jogos que eu fui fazendo pela seleção,
muitos dos que estavam contra hoje já estão a favor.
E o seu contato com o treinador Leo Beenhakker,
como aconteceu?
Uma pessoa ligada ao futebol lá na Polônia, no final
do ano passado, me consultou se eu tinha interesse em
defender a seleção polonesa, jogar a Eurocopa e tal.
E depois que eu aceitei, no começo do ano, eu tive uma
reunião rápida com ele, num hotel. Foi mais para ele
se apresentar e colocar o que queria para mim. Ele fala
espanhol e eu também, então ali nós já tivemos o primeiro
contato.
Você era lateral quando atuava no Corinthians
e no Flamengo, mas na Europa passou a jogar no meio-campo,
um caminho até já feito por outros jogadores como o
Mancini, na Roma, por exemplo. Essa é a posição com
a qual você se identifica mais?
Com certeza. Muita gente sempre me falava, até amigos
e pessoas ligadas ao futebol: ‘pô, quando alguém te
descobrir no meio de campo a sua carreira vai deslanchar’.
E realmente foi o que aconteceu. No Brasil joguei como
lateral, às vezes como ala e fui pra lá jogando como
um ponta esquerda. Hoje, jogo mais pelo centro do campo
e com certeza é minha posição preferida. Ali, você tem
uma visão maior do campo e eu gosto de dar bons passes
aos meus companheiros, deixá-los na cara do gol.
Foto AFP |
 |
Seu desempenho na Eurocopa foi muito bom. Você
marcou o único gol da seleção na competição, deu esperanças
de classificação naquele momento e foi escolhido o melhor
jogador pela UEFA, na partida contra a Áustria. Qual
é a sua avaliação desta experiência?
Foi uma experiência muito boa, mas fiquei triste pela
Polônia não ter conseguido passar de fase. Pelo conjunto,
fiquei triste, mas, individualmente, aprovei o meu desempenho,
até pelo pouco tempo de adaptação que tive na seleção,
pouco treinamento. Entrar em um grupo que já estava
formado e conseguir a vaga no time titular, fazer gol
e ser considerado o melhor em campo foi muito bom para
mim. Mas, coletivamente, eu fiquei triste porque acho
que a Polônia teria a condição de, pelo menos, ter passado
de fase.
No Brasil, tanto no Corinthians quanto pelo
Flamengo, você conquistou títulos. Mas teve esse episódio
da expulsão na Libertadores, no qual você ficou como
o vilão. Você acha que a atuação do técnico Geninho,
naquela hora em que ele disse ‘pega, pega’, acabou prejudicando
sua seqüência no Corinthians?
A gente sabe que esse grito de ‘pega pega’ e ‘marca’,
para quem joga futebol, significa que é para chegar
junto, diminuir o espaço e não para dar porrada. Mas
ali, foi um lance isolado. Foi a única expulsão que
eu tive na carreira. Eu não tomo nem cartões amarelos,
não sou um jogador violento. E infelizmente, depois
daquilo, eu perdi espaço no Corinthians. Mas tem o ditado
que diz “há males que vem para o bem” e depois daquilo
eu consegui, em outros clubes, dar a volta por cima.
Em todos os clubes pelos quais eu passei, exceto o Juventude,
consegui ser campeão, e isso me deixa muito contente.
Aconteceu algo semelhante na decisão da Copa
do Brasil, entre Corinthians e Sport. Teve o caso do
goleiro Felipe, que acabou também apontado como vilão,
e o Wellington Saci, que foi expulso depois de 58 segundos
em campo. Que conselho você daria a esses jogadores
para passar por esse momento?
Eu acho que tem que ter a cabeça no lugar e não deixar
se abater. Depois do momento que tive no Corinthians,
fiquei seis meses encostado. Eu lembro que eu não fazia
nem coletivo, tinha 22 atletas e eu não estava nem entre
eles. Então é uma situação bem complicada. Por isso,
tem que ter a cabeça no lugar e acreditar sempre no
seu potencial porque se não der certo em um lugar, vai
dar em outro, com certeza. Para o atleta, jogar, muitas
vezes, não depende só dele. Você tem o treinador, que
é quem escala, tem a diretoria. O futebol envolve muita
gente, então o conselho que eu dou é pra manter a cabeça
no lugar, tranqüilidade. O apoio da família também é
fundamental nesses momentos, porque, se eles chegaram
ao Corinthians, que é um clube muito grande, é porque
eles têm potencial. Se as portas se fecharem no Corinthians,
com certeza se abrirão em outros clubes.
Com a sua boa atuação na Eurocopa, acabou se
destacando. Você já tem propostas para deixar o Legia?
Quais são os seus planos agora?
Já estou há dois anos e meio no Legia, consegui títulos,
fui campeão polonês, campeão da Copa da Polônia e, em
2007, fui eleito o melhor estrangeiro do ano na Polônia.
Isso me deixa muito contente. Mas todo jogador tem aspirações
na vida, e eu tenho o sonho de jogar em uma grande liga
dentro da Europa, jogar uma Liga dos Campeões. Então,
é claro que eu não vou jogar no Legia a minha carreira
toda. Tenho contrato de mais um ano e meio e depois
dessa Eurocopa tive uma visibilidade muito boa, aparecem
sondagens. O que eu sei é o que leio na internet, o
que sai nos jornais da Europa, de clubes interessados.
Então estou aguardando propostas oficiais chegarem mesmo
e analisar o que vai ser melhor para mim e para o clube.
Eu sempre falei que eu só saio do Legia tendo uma situação
muito boa tanto para mim quanto para o clube.
Foto Marcelo Ferrelli/Gazeta
Press |
 |
Para o futuro, você tem planos de voltar a
jogar no Brasil?
No futuro, sim. Até lá eu assisto aos jogos do Campeonato
Brasileiro e quando vejo aquele estádio cheio, a torcida,
dá vontade de voltar a jogar aqui. Mas acho que não
agora. Eu tenho ainda que fazer a minha carreira na
Europa. Se Deus quiser vou conseguir e depois que estiver
bem estável e ter atingido meus objetivos, tenho vontade
de voltar a jogar no Brasil
Você teve três passagens pelo Corinthians,
nas quais queria ficar, mas acabou não dando certo.
Se fosse para voltar ao Brasil, você aceitaria jogar
no Corinthians, ou seria mesmo o Flamengo, clube no
qual você já teve uma seqüência maior?
Se tivesse uma preferência, com certeza, seria o Flamengo,
que foi onde eu tive meus momentos mais felizes no futebol
brasileiro. E a torcida lá me adora, gosta muito de
mim. Não que a do Corinthians não goste: é o que eu
falei, às vezes, encontro torcedores do Corinthians
na rua e pedem pra eu voltar. Mas, se tivesse que escolher
entre os dois, seria o Flamengo.
E se um dia você tiver que enfrentar o Brasil,
como seria para você? Já pensou nessa possibilidade?
Já pensei e com certeza seria uma emoção diferente,
um momento muito especial. E eu sempre brinco com os
meus amigos. Eu me imagino mesmo jogando uma Copa do
Mundo, enfrentar o Brasil e até fazer gol. Claro que
eu vou respeitar e não comemoraria o gol. Mas espero
sim, de repente, um dia enfrentar o seleção,
sair vencedor e dar os três pontos para a Polônia.
|