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23/05/2008
Montagem sobre foto Marcelo Ferrelli / Gazeta Press

Por Marta Teixeira

Fotos: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
 

Aos 27 anos, o triplista Jadel Gregório é o representante de uma tradição brasileira que inclui Adhemar Ferreira da Silva, ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque-52 e Melbourne-56, Nelson Prudêncio, prata na Cidade do México-68 e bronze em Munique-72, e João do Pulo, bronze em Montreal-76 e Moscou-80.

Vice-campeão mundial em Osaka-2007, vice na Final Mundial em Stuttgart um ano antes, atual campeão dos Jogos Pan-americanos, Jadel teve de se contentar com um amargo quinto lugar em sua estréia olímpica, quatro anos atrás, em Atenas. Agora, ele volta à briga em Pequim sonhando em, finalmente, recolocar o Brasil no pódio da principal competição poliesportiva do mundo.

Treinando na Inglaterra desde 2005 e há dois anos e meio com Peter Stanley (que treinou o recordista mundial da prova Jonathan Edwards), Jadel fala com tranqüilidade da experiência na Grécia e manda um aviso: tudo que aconteceu serviu para lhe dar mais força interior, o que ele pretende colocar para fora e finalmente realizar o sonho da medalha na China.

Vindo de família simples, sua carreira esportiva teria começado aos 13 anos, não fosse a falta de estrutura no país. Como muitos outros, Jadel precisou driblar primeiro as adversidades econômico-sociais para só depois concentrar seus esforços apenas em vencer os adversários na pista.

“Tive de vender sorvete, tive de trabalhar de pedreiro, tive de trabalhar em fazenda, fazer uma série de coisas e encaixar o atletismo no meio”, lembra, explicando porque somente em 1998 conseguiu realmente tornar-se atleta ao iniciar os treinos na capital paulista com Tânia e Nélio Moura. “Tive de trabalhar, treinar, ajudar em casa, tive de fazer de tudo um pouco e graças a Deus cheguei onde cheguei”, lembra.

O ex-jogador de handebol de 2,02m impressiona pelo ar grave e sempre concentrado, mas revela-se tocado pelo carinho público e não esconde sua preocupação em ser tão bom exemplo fora das pistas quanto competidor dentro delas. “Infelizmente, a gente viu coisas que saíram recentemente e acabam prejudicando aquelas criancinhas que estão treinando, que estão querendo ser um Jadel, um Ronaldo, um Ronaldinho. A gente tem de dar exemplo”, ensina.

Outra coisa que preocupa o triplista é o futuro. Apesar de ter ainda uma longa e promissora carreira pela frente, ele confessa seus temores pela falta de jovens talentos nacionais.  “Antes do Jadel sair, precisa ter outros saltando, correndo, começando a empurrar o Jadel, dizendo ‘tá chegando a sua hora’ e eu ainda não estou vendo isso. É triste de ver e deixa a gente preocupado”, diz.

Com projetos de criação de um Centro de Treinamento em Marília (SP), para onde sua família se mudou vinda do Paraná quando ainda era criança, ele espera ajudar a fazer a diferença em breve e torce para que outros ídolos esportivos descubram que não basta ser um fenômeno naquilo que fazem, é preciso ser exemplo. Mas antes disso, Jadel enfrenta seu grande desafio, em agosto, em Pequim.

Em passagem pelo Brasil para a disputa dos meeting de área da IAAF organizados pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Jadel concedeu esta entrevista à Gazeta Esportiva.Net e falou sobre a mudança para o Clube Pinheiros, seus projetos, da preparação para as Olimpíadas e do reencontro com seu principal adversário, o atual campeão olímpico Christian Olsson. Apesar da comentada rivalidade, o brasileiro minimiza. “Ele não me preocupa. (...) acho que é um desvio de energia desnecessário. Eu foco minha energia em mim mesmo”, ressalta.

O caminho até o pódio olímpico ainda demandará muito esforço do paranaense. O título em 2004 foi conquistado com 17,79m e o bronze do russo Danila Burkenya com 17m48m. Nesta temporada, a melhor marca pertence ao cubano Arnie Girat, campeão do GP no Rio no final de semana passado. Girat saltou 17,50m em fevereiro. A melhor marca de Jadel até agora foi os 17,27m no meeting carioca.

Mas ele não se intimida. “O objetivo é concluir o sonho e está próximo”, diz o atleta que saltou 17,90m (seu recorde pessoal) em 2007.

Gazeta Esportiva.Net - Como está sua preparação para as Olimpíadas?

Jadel Gregório - Esta é uma fase de treinos puxados em dois períodos, todos os dias. Estamos pensando em resultados a partir de julho/agosto.

Então, estes meetings no Brasil estão encaixados na sua programação como  treinos...

JG - Sim, são como se fossem treinos. Estou acertando a parte técnica, corrida, postura, a entrada na entrada na tábua.

Está satisfeito com o que tem apresentado nestas etapas?

JG - Muito contente. Fiz três competições defendendo meu novo clube, o Pinheiros, em duas fui ouro e uma prata. Nesta última saltei 17,27m. Além do que eu esperava. Esperava 17m-17,10m pela fase do treinamento. A gente está no caminho certo. [Nesta quinta-feira, Jadel disputou o GP São Paulo e terminou em quarto, saltando 16,91m].

Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
 

Você está começando uma nova fase com a troca de clube, o que te motivou a fazer esta mudança?

JG - Foi muito rápido. Tenho boas lembranças do clube BM&F, fui muito bem tratado ao longo destes 9 anos. Só tenho coisas boas para falar, mas tive que mudar. Hoje, estou muito contente no Clube Pinheiros, com uma nova equipe, novos parceiros. A gente está continuando o que iniciou há 9 anos.

O esquema de trabalho será o mesmo?

JG – Sim. Continuo competindo lá fora e aqui também. Este ano estou fazendo mais competições (cinco), depois o Troféu Brasil e as internacionais. Mas continua a mesma coisa, treinando oito meses lá fora e três meses aqui no clube. Meu técnico ainda é o inglês (Peter Stanley).

Você é uma pessoa corajosa, de tempos em tempos faz escolhas radicais. Quando ninguém esperava você trocou os treinos no Brasil e foi para a Europa (antes disso chegou a treinar sozinho), depois mudou de técnico e agora, de clube. Como administra esta parte da sua carreira?

JG - Ao longo dos anos, a gente vai adquirindo auto-confiança. Quando o atleta começa a se conhecer, automaticamente coloca os limites e vai buscar estes limites e é o que vem acontecendo. Graças a Deus, cheguei neste nível de ter auto-confiança e não paro. Meu objetivo é X e não paro.

Falando em objetivos, qual é sua meta em Pequim? Você está em busca de um pódio, de uma distância em seu salto?

JG - Meu objetivo é continuar treinando muito bem e, se continuar treinando muito bem, automaticamente meus resultados vão sair. Será tudo em função do meu treinamento. Se continuar bem, vou ter bom resultado e tendo bom resultado a gente vai chegar no esperado.

Um esperado pódio, medalha...

JG - Isto. Na última Olimpíada, eu não trouxe nada. Meu objetivo era saltar bem e infelizmente aconteceram algumas coisas que não deram certo. Mas continuamos trabalhando com muita garra, apesar das coisas que saíram e do que falaram. O Jadel continua mais forte que nunca. O objetivo é concluir o sonho e está próximo.

Após as Olimpíadas, você foi muito criticado. Como foi lidar com tudo o que aconteceu naquela época? Você ficou frustrado com o resultado?

JG - Eu esperei demais de algumas pessoas e não tive o mesmo feedback (retorno). O que eu investi não foi retribuído. Acho que isto me deixou um pouco triste, mas só me deu forças. Ao invés de me desanimar só deu força. Tanto é que em 2005 eu saltei 17,73m depois 17,72m fui melhorando não só o resultado em si, mas a média. Isso criou uma força interna no Jadel. Estou com uma força absurda dentro de mim devido aos acontecimentos e às experiências da vida. E eu carrego isto dia a dia, no treinamento, na rua quando as pessoas me pedem autógrafo...

Que lição aprendida em Atenas você pretende utilizar na China?

JG - Já utilizei. Usei tudo o que passou ao longo destes quatro anos, no dia-a-dia. Agora é só chegar bem e competir.

Você sonha com um bom resultado em Pequim? Quanto você acha que pode saltar este ano?

JG - (Sorrindo) Posso melhorar meu resultado. Meu objetivo é melhorar minha marca e depois melhorar novamente e ir melhorando de pouquinho em pouquinho...

Você e Olsson (o sueco Christian Olsson, atual campeão olímpico) têm uma rivalidade muito comentada. Ela é real? Ele está voltando agora (oficialmente, uma lesão na coxa o impediu de disputar o Mundial de Osaka no ano passado), você acredita que ele estará competitivo para Pequim?

JG - Na verdade, ele não me preocupa. O que me preocupa é ter de chegar na pista todos os dias, treinar e acertar os meus erros. Não sei o que ele está treinando, não sei se operou, se não operou ou como ele anda porque acho que é um desvio de energia desnecessário. Eu foco minha energia em mim mesmo. Procuro acertar meus erros, acertar minha corrida, meu salto para chegar na competição muito bem preparado, sem esperar que o outro se machuque ou ficar torcendo contra. Pelo contrário, torço para que ele faça o melhor dele e eu vou tentar fazer o meu melhor.

Além de Olsson, você espera uma competitividade internacional muito grande na sua prova?

JG - As competições vão estar certamente em um nível fortíssimo, mas o objetivo de todos é saltar longe. Independente de ser de um país ou de outro, eu torço para que todos se saiam bem e que vença o melhor.

Disputar uma Olimpíada é muito diferente para você? Como encara?

JG - A mágica da Olimpíada é inexplicável. Como eu não vivi a abertura, eu não senti isso. A magia começa na abertura. A gente não pode chegar só para competir e ir embora. Tem todo um preparo, chegar na vila, ver a abertura, poder conversar com os atletas, poder tirar foto com os atletas, poder treinar, eu não vivi esta energia. Só cheguei, treinei dois dias, competi e fui embora. Hoje eu quero viver esta energia total, do início ao fim e concluir o sonho que é competir bem.

Quem são seus ídolos? Com quem Jadel quer tirar foto?

Pessoas de caráter, do bem, me motivam. Olho a pessoa, vejo que ela faz coisas do bem, fala bem das pessoas e já me cativou. Quero tirar fotos com todos os atletas, as pessoas que passam uma energia boa. Eu sou movido a energia e, amanhã posso mostrar para meus filhos, meus amigos e fazer história. Meu trabalho é competir, mas a gente tem de ter uma história ao longo dos anos, fazer amizades porque quando isto tudo terminar vai cada um para seu canto... Tem de ter isso, esta amizade continua até o fim da vida.

Sua modalidade tem muita tradição no Brasil. Tivemos uma longa seqüência de campeões, pessoas com muitos resultados, tivemos João do Pulo e uma lacuna significativa até surgir o Jadel. Renovação é uma coisa que te preocupa ou você acha que há um projeto estruturado para a continuidade desta dinastia do triplo?

JG - Eu fico triste ao lembrar que depois do João do Pulo teve este espaço de dez anos praticamente sem um atleta chegar pelo menos próximo ou representar muito bem lá fora. Não conseguimos concluir uma coisa de alto nível, de medalhas, finais e é triste lembrar disso porque o país é tão grande, tem tantos atletas, mas precisa de mais centros de treinamento, espaço e um pouco mais de investimento. Antes do Jadel sair, precisa ter outros saltando, correndo, começando a empurrar o Jadel, dizendo ‘tá chegando a sua hora’ e eu ainda não estou vendo isso. É triste de ver e deixa a gente preocupado.

Foto: Marcelo Ferrelli / Gazeta Press
 

É possível comparar a situação do esporte hoje no Brasil com a que você vivencia na Europa? O que poderia melhorar?

JG - Hoje melhorou muito, mas ainda pode melhorar mais. Tem uma diferença muito grande, mas acho que com o tempo a gente vai chegar lá. Poderia ter mais centros de treinamento, mais técnicos para trabalhar com crianças menores, dos 11 aos 15 anos um tipo de técnico, dos 15 aos 18 outro, até o técnico alto nível. Precisa haver uma escola de técnicos, espaço para a criançada - porque hoje é difícil achar centros de treinamentos, que é onde nasce o esporte -, e um incentivo: uma cesta básica, R$ 100 por mês, uma passagem ou um lanche. Isto começa a atrair as crianças para praticar esportes.

Quando você vem ao Brasil o assédio é muito grande, a situação é diferente da Europa ou lá eles também te param na rua? Como é este contato com o público para você?

JG - Na Inglaterra, onde eu moro, algumas pessoas já me conhecem por sair no jornal e algumas entrevistas. Aqui no Brasil, após o Pan, fiquei bem mais conhecido. Saio na rua e as pessoas dizem: ‘você, eu lembro das suas palmas, parabéns’. Hoje é mais gostoso andar na rua, mas na Europa continua bem tranqüilo. Aqui as pessoas são meio tímidas, esperam um tirar a foto, quando um tira vem todo mundo. Se um pede autógrafo, vem bastante gente. Depois que vem o primeiro, todo mundo quer. Mas, para mim, isto é gostoso. Quer dizer que venho trabalhando bem, muita gente tem me acompanhado e que a gente tem feito coisas que agradam dentro e fora da pista.

Recentemente, você recebeu a Ordem do Rio Branco, o público te reconhece... Existe um retorno para o atleta no Brasil?

JG - Melhorou bastante. Vai também da postura do atleta. Ele tem de saber ser atleta dentro e fora da pista, porque muita gente se espelha nele, muitas crianças. Infelizmente, a gente viu coisas que saíram recentemente e acabam prejudicando aquelas criancinhas que estão treinando, que estão querendo ser um Jadel, um Ronaldo, um Ronaldinho. A gente tem de dar exemplo. Quando a gente começa a dar exemplo, as pessoas começam a acompanhar a gente mais de perto e acho que tem feedback legal.

Você parece realmente preocupado com isso. É mais difícil ser um bom atleta ou um exemplo?

JG - Eu tenho dois filhos e quero que amanhã eles tenham um ponto de referência: ‘meu pai, minha mãe ou meu avô era deste jeito e eu quero ser deste jeito’. O Brasil ainda é carente de ídolos que tenham uma postura legal. A gente tem muitos talentos, muitas pessoas que fizeram muitas coisas pelo Brasil, mas acabou deixando muita coisa a desejar (fora das competições). Acho que a gente precisa muito disso.

E como o Jadel pode fazer a diferença, quais são seus projetos?

JG - Eu tenho uma escolinha em Marília que, infelizmente, não consegui dar continuidade. A gente está tentando, lutando e, em breve, talvez consiga concluir este sonho. Foi cedida a pista, o centro de treinamento foi aprovado pelo ministro dos Esportes, só estamos esperando iniciar as obras. Meu objetivo é fazer estas crianças começarem a se mexer, tirá-las da rua e fazer com que tenham a oportunidade que eu, talvez, não tive. Precisei sair de Marília e estou levando o Centro para lá para que outros não tenham de sair da cidade, de perto da família. Meu sonho é concluir isto, é continuar no atletismo, representando bem o país, continuar competindo. Minha vida toda sempre foi muito competitiva, desde a infância até o dia de hoje. Quero continuar com saúde, criar minhas crianças e me manter sempre do jeito que eu sou. Andar na rua tranqüilo, poder apertar a mão de um aqui, de outro lá, sem ter receio, sem ter de me esconder. Ser esta pessoa limpa e transparente que eu sou. Meu objetivo é este, continuar sendo o Jadel até quando minhas crianças estiverem velhas.

Você passou por muitas coisas até chegar aqui, como foi seu início de carreira?

JG - Tive de vender sorvete, tive de trabalhar de pedreiro, tive de trabalhar em fazenda, fazer uma série de coisas e encaixar o atletismo no meio. Então, quero levar isto para estas crianças para que não precisem trabalhar e possam simplesmente depositar energia no esporte e na escola. O objetivo é este porque no meu passado não tive isso. Comecei aos 13 anos, mas tive de abandonar várias vezes. Sério mesmo comecei em 98 quando vim para São Paulo. Tive de trabalhar, tive de treinar, ajudar em casa, tive de fazer de tudo um pouco e graças a Deus cheguei onde cheguei, correu tudo certinho. Eu acho que é possível tirar desse tanto de crianças que tem na rua campeões mundiais, isto não é difícil. Basta ter vontade e vontade eu tenho muita, mas precisa de dinheiro também. Isto é questão de fazer acordos com indústria e empresários e poder concluir o que é, sem dúvida, o caminho certo.

Não havia nenhum atleta em sua família, o começo foi por causa da escola?

JG - É, no colégio jogava handebol, ficava o dia todo na educação física de manhã e estendia para a da tarde. Um dia, uma professora me chamou, disse que conhecia alguém que fazia atletismo, que me viu correr e quem sabe podia me dar bem... Fui uma vez, duas, três e estou indo até hoje.

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