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Por Marta Teixeira
| Fotos: Marcelo Ferrelli / Gazeta
Press |
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Aos 27 anos, o triplista Jadel Gregório é o
representante de uma tradição brasileira que
inclui Adhemar Ferreira da Silva, ouro nos Jogos Olímpicos
de Helsinque-52 e Melbourne-56, Nelson Prudêncio, prata
na Cidade do México-68 e bronze em Munique-72, e João
do Pulo, bronze em Montreal-76 e Moscou-80.
Vice-campeão mundial em Osaka-2007, vice na Final
Mundial em Stuttgart um ano antes, atual campeão dos
Jogos Pan-americanos, Jadel teve de se contentar com um amargo
quinto lugar em sua estréia olímpica, quatro
anos atrás, em Atenas. Agora, ele volta à briga
em Pequim sonhando em, finalmente, recolocar o Brasil no
pódio da principal competição poliesportiva
do mundo.
Treinando na Inglaterra desde 2005 e há dois anos
e meio com Peter Stanley (que treinou o recordista mundial
da prova Jonathan Edwards), Jadel fala com tranqüilidade
da experiência na Grécia e manda um aviso: tudo
que aconteceu serviu para lhe dar mais força interior,
o que ele pretende colocar para fora e finalmente realizar
o sonho da medalha na China.
Vindo de família simples, sua carreira esportiva
teria começado aos 13 anos, não fosse a falta
de estrutura no país. Como muitos outros, Jadel precisou
driblar primeiro as adversidades econômico-sociais
para só depois concentrar seus esforços apenas
em vencer os adversários na pista.
“Tive de vender sorvete, tive de trabalhar de pedreiro,
tive de trabalhar em fazenda, fazer uma série de coisas
e encaixar o atletismo no meio”, lembra, explicando
porque somente em 1998 conseguiu realmente tornar-se atleta
ao iniciar os treinos na capital paulista com Tânia
e Nélio Moura. “Tive de trabalhar, treinar,
ajudar em casa, tive de fazer de tudo um pouco e graças
a Deus cheguei onde cheguei”, lembra.
O ex-jogador de handebol de 2,02m impressiona pelo ar grave
e sempre concentrado, mas revela-se tocado pelo carinho público
e não esconde sua preocupação em ser
tão bom exemplo fora das pistas quanto competidor
dentro delas. “Infelizmente, a gente viu coisas que
saíram recentemente e acabam prejudicando aquelas
criancinhas que estão treinando, que estão
querendo ser um Jadel, um Ronaldo, um Ronaldinho. A gente
tem de dar exemplo”, ensina.
Outra coisa que preocupa o triplista é o futuro.
Apesar de ter ainda uma longa e promissora carreira pela
frente, ele confessa seus temores pela falta de jovens talentos
nacionais. “Antes do Jadel sair, precisa ter
outros saltando, correndo, começando a empurrar o
Jadel, dizendo ‘tá chegando a sua hora’ e
eu ainda não estou vendo isso. É triste de
ver e deixa a gente preocupado”, diz.
Com projetos de criação de um Centro de Treinamento
em Marília (SP), para onde sua família se mudou
vinda do Paraná quando ainda era criança, ele
espera ajudar a fazer a diferença em breve e torce
para que outros ídolos esportivos descubram que não
basta ser um fenômeno naquilo que fazem, é preciso
ser exemplo. Mas antes disso, Jadel enfrenta seu grande desafio,
em agosto, em Pequim.
Em passagem pelo Brasil para a disputa dos meeting de área
da IAAF organizados pela Confederação Brasileira
de Atletismo (CBAt), Jadel concedeu esta entrevista à Gazeta
Esportiva.Net e falou sobre a mudança para
o Clube Pinheiros, seus projetos, da preparação
para as Olimpíadas e do reencontro com seu principal
adversário, o atual campeão olímpico
Christian Olsson. Apesar da comentada rivalidade, o brasileiro
minimiza. “Ele não me preocupa. (...) acho que é um
desvio de energia desnecessário. Eu foco minha energia
em mim mesmo”, ressalta.
O caminho até o pódio olímpico ainda
demandará muito esforço do paranaense. O título
em 2004 foi conquistado com 17,79m e o bronze do russo Danila
Burkenya com 17m48m. Nesta temporada, a melhor marca pertence
ao cubano Arnie Girat, campeão do GP no Rio no final
de semana passado. Girat saltou 17,50m em fevereiro. A melhor
marca de Jadel até agora foi os 17,27m no meeting
carioca.
Mas ele não se intimida. “O objetivo é concluir
o sonho e está próximo”, diz o atleta
que saltou 17,90m (seu recorde pessoal) em 2007.
Gazeta Esportiva.Net - Como está sua preparação
para as Olimpíadas?
Jadel Gregório - Esta é uma
fase de treinos puxados em dois períodos, todos os
dias. Estamos pensando em resultados a partir de julho/agosto.
Então, estes meetings no Brasil estão
encaixados na sua programação como treinos...
JG - Sim, são como se fossem treinos.
Estou acertando a parte técnica, corrida, postura,
a entrada na entrada na tábua.
Está satisfeito com o que tem apresentado
nestas etapas?
JG - Muito contente. Fiz três competições
defendendo meu novo clube, o Pinheiros, em duas fui ouro
e uma prata. Nesta última saltei 17,27m. Além
do que eu esperava. Esperava 17m-17,10m pela fase do treinamento.
A gente está no caminho certo. [Nesta quinta-feira, Jadel disputou o GP São Paulo e terminou em quarto, saltando 16,91m].
Você está começando uma nova
fase com a troca de clube, o que te motivou a fazer esta
mudança?
JG - Foi muito rápido. Tenho boas
lembranças do clube BM&F, fui muito bem tratado
ao longo destes 9 anos. Só tenho coisas boas para
falar, mas tive que mudar. Hoje, estou muito contente no
Clube Pinheiros, com uma nova equipe, novos parceiros. A
gente está continuando o que iniciou há 9 anos.
O esquema de trabalho será o mesmo?
JG – Sim. Continuo competindo lá fora
e aqui também. Este ano estou fazendo mais competições
(cinco), depois o Troféu Brasil e as internacionais.
Mas continua a mesma coisa, treinando oito meses lá fora
e três meses aqui no clube. Meu técnico ainda é o
inglês (Peter Stanley).
Você é uma pessoa corajosa, de tempos
em tempos faz escolhas radicais. Quando ninguém
esperava você trocou os treinos no Brasil e foi para
a Europa (antes disso chegou a treinar sozinho), depois
mudou de técnico e agora, de clube. Como administra
esta parte da sua carreira?
JG - Ao longo dos anos, a gente vai adquirindo
auto-confiança. Quando o atleta começa a se
conhecer, automaticamente coloca os limites e vai buscar
estes limites e é o que vem acontecendo. Graças
a Deus, cheguei neste nível de ter auto-confiança
e não paro. Meu objetivo é X e não paro.
Falando em objetivos, qual é sua meta em
Pequim? Você está em busca de um pódio,
de uma distância em seu salto?
JG - Meu objetivo é continuar treinando
muito bem e, se continuar treinando muito bem, automaticamente
meus resultados vão sair. Será tudo em função
do meu treinamento. Se continuar bem, vou ter bom resultado
e tendo bom resultado a gente vai chegar no esperado.
Um esperado pódio, medalha...
JG - Isto. Na última Olimpíada,
eu não trouxe nada. Meu objetivo era saltar bem e
infelizmente aconteceram algumas coisas que não deram
certo. Mas continuamos trabalhando com muita garra, apesar
das coisas que saíram e do que falaram. O Jadel continua
mais forte que nunca. O objetivo é concluir o sonho
e está próximo.
Após as Olimpíadas, você foi
muito criticado. Como foi lidar com tudo o que aconteceu
naquela época? Você ficou frustrado com o
resultado?
JG - Eu esperei demais de algumas pessoas
e não tive o mesmo feedback (retorno). O
que eu investi não foi retribuído. Acho que
isto me deixou um pouco triste, mas só me deu forças.
Ao invés de me desanimar só deu força.
Tanto é que em 2005 eu saltei 17,73m depois 17,72m
fui melhorando não só o resultado em si, mas
a média. Isso criou uma força interna no Jadel.
Estou com uma força absurda dentro de mim devido aos
acontecimentos e às experiências da vida. E
eu carrego isto dia a dia, no treinamento, na rua quando
as pessoas me pedem autógrafo...
Que lição aprendida em Atenas você pretende
utilizar na China?
JG - Já utilizei. Usei tudo o que
passou ao longo destes quatro anos, no dia-a-dia. Agora é só chegar
bem e competir.
Você sonha com um bom resultado em Pequim?
Quanto você acha que pode saltar este ano?
JG - (Sorrindo) Posso melhorar meu resultado.
Meu objetivo é melhorar minha marca e depois melhorar
novamente e ir melhorando de pouquinho em pouquinho...
Você e Olsson (o sueco Christian Olsson, atual
campeão olímpico) têm uma rivalidade
muito comentada. Ela é real? Ele está voltando
agora (oficialmente, uma lesão na coxa o impediu
de disputar o Mundial de Osaka no ano passado), você acredita
que ele estará competitivo para Pequim?
JG - Na verdade, ele não me preocupa.
O que me preocupa é ter de chegar na pista todos os
dias, treinar e acertar os meus erros. Não sei o que
ele está treinando, não sei se operou, se não
operou ou como ele anda porque acho que é um desvio
de energia desnecessário. Eu foco minha energia em
mim mesmo. Procuro acertar meus erros, acertar minha corrida,
meu salto para chegar na competição muito bem
preparado, sem esperar que o outro se machuque ou ficar torcendo
contra. Pelo contrário, torço para que ele
faça o melhor dele e eu vou tentar fazer o meu melhor.
Além de Olsson, você espera uma competitividade
internacional muito grande na sua prova?
JG - As competições vão
estar certamente em um nível fortíssimo, mas
o objetivo de todos é saltar longe. Independente de
ser de um país ou de outro, eu torço para que
todos se saiam bem e que vença o melhor.
Disputar uma Olimpíada é muito diferente
para você? Como encara?
JG - A mágica da Olimpíada é inexplicável.
Como eu não vivi a abertura, eu não senti isso.
A magia começa na abertura. A gente não pode
chegar só para competir e ir embora. Tem todo um preparo,
chegar na vila, ver a abertura, poder conversar com os atletas,
poder tirar foto com os atletas, poder treinar, eu não
vivi esta energia. Só cheguei, treinei dois dias,
competi e fui embora. Hoje eu quero viver esta energia total,
do início ao fim e concluir o sonho que é competir
bem.
Quem são seus ídolos? Com quem Jadel
quer tirar foto?
Pessoas de caráter, do bem, me motivam. Olho a pessoa,
vejo que ela faz coisas do bem, fala bem das pessoas e já me
cativou. Quero tirar fotos com todos os atletas, as pessoas
que passam uma energia boa. Eu sou movido a energia e, amanhã posso
mostrar para meus filhos, meus amigos e fazer história.
Meu trabalho é competir, mas a gente tem de ter uma
história ao longo dos anos, fazer amizades porque
quando isto tudo terminar vai cada um para seu canto... Tem
de ter isso, esta amizade continua até o fim da vida.
Sua modalidade tem muita tradição
no Brasil. Tivemos uma longa seqüência de campeões,
pessoas com muitos resultados, tivemos João do Pulo
e uma lacuna significativa até surgir o Jadel. Renovação é uma
coisa que te preocupa ou você acha que há um
projeto estruturado para a continuidade desta dinastia
do triplo?
JG - Eu fico triste ao lembrar que depois
do João do Pulo teve este espaço de dez anos
praticamente sem um atleta chegar pelo menos próximo
ou representar muito bem lá fora. Não conseguimos
concluir uma coisa de alto nível, de medalhas, finais
e é triste lembrar disso porque o país é tão
grande, tem tantos atletas, mas precisa de mais centros de
treinamento, espaço e um pouco mais de investimento.
Antes do Jadel sair, precisa ter outros saltando, correndo,
começando a empurrar o Jadel, dizendo ‘tá chegando
a sua hora’ e eu ainda não estou vendo isso. É triste
de ver e deixa a gente preocupado.
É possível comparar a situação
do esporte hoje no Brasil com a que você vivencia
na Europa? O que poderia melhorar?
JG - Hoje melhorou muito, mas ainda pode
melhorar mais. Tem uma diferença muito grande, mas
acho que com o tempo a gente vai chegar lá. Poderia
ter mais centros de treinamento, mais técnicos para
trabalhar com crianças menores, dos 11 aos 15 anos
um tipo de técnico, dos 15 aos 18 outro, até o
técnico alto nível. Precisa haver uma escola
de técnicos, espaço para a criançada
- porque hoje é difícil achar centros de treinamentos,
que é onde nasce o esporte -, e um incentivo: uma
cesta básica, R$ 100 por mês, uma passagem ou
um lanche. Isto começa a atrair as crianças
para praticar esportes.
Quando você vem ao Brasil o assédio é muito
grande, a situação é diferente da
Europa ou lá eles também te param na rua?
Como é este contato com o público para você?
JG - Na Inglaterra, onde eu moro, algumas
pessoas já me conhecem por sair no jornal e algumas
entrevistas. Aqui no Brasil, após o Pan, fiquei bem
mais conhecido. Saio na rua e as pessoas dizem: ‘você,
eu lembro das suas palmas, parabéns’. Hoje é mais
gostoso andar na rua, mas na Europa continua bem tranqüilo.
Aqui as pessoas são meio tímidas, esperam um
tirar a foto, quando um tira vem todo mundo. Se um pede autógrafo,
vem bastante gente. Depois que vem o primeiro, todo mundo
quer. Mas, para mim, isto é gostoso. Quer dizer
que venho trabalhando bem, muita gente tem me acompanhado
e que a gente tem feito coisas que agradam dentro e fora
da pista.
Recentemente, você recebeu a Ordem do Rio
Branco, o público te reconhece... Existe um retorno
para o atleta no Brasil?
JG - Melhorou bastante. Vai também
da postura do atleta. Ele tem de saber ser atleta dentro
e fora da pista, porque muita gente se espelha nele, muitas
crianças. Infelizmente, a gente viu coisas que saíram
recentemente e acabam prejudicando aquelas criancinhas que
estão treinando, que estão querendo ser um
Jadel, um Ronaldo, um Ronaldinho. A gente tem de dar exemplo.
Quando a gente começa a dar exemplo, as pessoas começam
a acompanhar a gente mais de perto e acho que tem feedback legal.
Você parece realmente preocupado com isso. É mais
difícil ser um bom atleta ou um exemplo?
JG - Eu tenho dois filhos e quero que amanhã eles
tenham um ponto de referência: ‘meu pai, minha
mãe ou meu avô era deste jeito e eu quero ser
deste jeito’. O Brasil ainda é carente de ídolos
que tenham uma postura legal. A gente tem muitos talentos,
muitas pessoas que fizeram muitas coisas pelo Brasil, mas
acabou deixando muita coisa a desejar (fora das competições).
Acho que a gente precisa muito disso.
E como o Jadel pode fazer a diferença, quais
são seus projetos?
JG - Eu tenho uma escolinha em Marília
que, infelizmente, não consegui dar continuidade.
A gente está tentando, lutando e, em breve, talvez
consiga concluir este sonho. Foi cedida a pista, o centro
de treinamento foi aprovado pelo ministro dos Esportes, só estamos
esperando iniciar as obras. Meu objetivo é fazer estas
crianças começarem a se mexer, tirá-las
da rua e fazer com que tenham a oportunidade que eu, talvez,
não tive. Precisei sair de Marília e estou
levando o Centro para lá para que outros não
tenham de sair da cidade, de perto da família. Meu
sonho é concluir isto, é continuar no atletismo,
representando bem o país, continuar competindo. Minha
vida toda sempre foi muito competitiva, desde a infância
até o dia de hoje. Quero continuar com saúde,
criar minhas crianças e me manter sempre do jeito
que eu sou. Andar na rua tranqüilo, poder apertar a
mão de um aqui, de outro lá, sem ter receio,
sem ter de me esconder. Ser esta pessoa limpa e transparente
que eu sou. Meu objetivo é este, continuar sendo o
Jadel até quando minhas crianças estiverem
velhas.
Você passou por muitas coisas até chegar
aqui, como foi seu início de carreira?
JG - Tive de vender sorvete, tive de trabalhar
de pedreiro, tive de trabalhar em fazenda, fazer uma série
de coisas e encaixar o atletismo no meio. Então, quero
levar isto para estas crianças para que não
precisem trabalhar e possam simplesmente depositar energia
no esporte e na escola. O objetivo é este porque no
meu passado não tive isso. Comecei aos 13 anos, mas
tive de abandonar várias vezes. Sério mesmo
comecei em 98 quando vim para São Paulo. Tive de trabalhar,
tive de treinar, ajudar em casa, tive de fazer de tudo um
pouco e graças a Deus cheguei onde cheguei, correu
tudo certinho. Eu acho que é possível tirar
desse tanto de crianças que tem na rua campeões
mundiais, isto não é difícil. Basta
ter vontade e vontade eu tenho muita, mas precisa de dinheiro
também. Isto é questão de fazer acordos
com indústria e empresários e poder concluir
o que é, sem dúvida, o caminho certo.
Não havia nenhum atleta em sua família,
o começo foi por causa da escola?
JG - É, no colégio jogava
handebol, ficava o dia todo na educação física
de manhã e estendia para a da tarde. Um dia, uma professora
me chamou, disse que conhecia alguém que fazia atletismo,
que me viu correr e quem sabe podia me dar bem... Fui uma
vez, duas, três e estou indo até hoje. |