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19/09/2008
Montagem sobre foto Divulgação
Foto Djalma Vassão / Gazeta Press
Foto AFP
RAIO-X

Nome: Hélia Rogério de Souza Pinto
Apelido: Fofão - a idéia foi de um antigo treinador da atleta, João Crisóstomo, que achava que ela tinha bochechas semelhantes ao do personagem Fofão, do Balão Mágico. "E, quando a gente não gosta do apelido, ele pega", comenta a jogadora, hoje já acostumada com a alcunha.
Posição: Levantadora (no início da carreira, chegou a atuar como atacante)
Data e Local de Nascimento: 10 de março de 1970, em São Paulo
Altura: 1,73m
Peso: 63kg
Primeira convocação para a seleção brasileira: Jogos Pan-americanos de 1991. Curiosamente, Fofão nunca foi chamada para integrar as seleções nacionais de categorias de base.
Jogos pela seleção adulta: 340
Participações olímpicas: Cinco (Barcelona-1992, Atlanta-1996, Sidney-2000, Atenas-2004 e Pequim-2008)
Clubes: Pão de Açúcar (1985-1987), Pão de Açúcar/Paineiras (1988-1990), Pão de Açúcar/Colgate (1990-1992), Colgate/São Caetano (1992-1994), Sollo/Tietê (1994-1995), Transmontano/Ribeirão Preto (1995-1996), Uniban/São Caetano (1996-1998), Uniban/São Bernardo (1998-1999), MRV/Minas (1999-2003), Rexona/Ades (2003-2004), Perugia (Itália, 2004-2007), Murcia (Espanha, 2007-2008) e São Caetano/Blausiegel (atual).

Principais conquistas:
- Três medalhas olímpicas (ouro em Pequim-2008 e bronze em Atlanta-1996 e Sidney-2000)
- Dois vice-campeonatos mundiais (1994 e 2006)
- Três pratas (1995, 2003 e 2007) e um bronze (1999) na Copa do Mundo
- Seis títulos do Grand Prix (1994, 1996, 1998, 2004, 2006 e 2008)
- Ouro no Pan de 1999 e Prata no de 1991 e 2007
- Liga Nacional (1990/1991)
- Superliga (1998/1999 e 2001/2002)
- Campeã sul-americana de clubes (1990/1991)
- Vice-campeã mundial de clubes (1991/1992)
- Copa Itália (2004/2005)
- Copa CEV (2004/2005)
- Campeonato Italiano (2004/2005)
- Champions League (2005/2006)
- Superliga da Espanha (2007/2008)

Por Carolina Canossa

Em quadra, Fofão não chama muito a atenção. Tranqüila, a ex-capitã da seleção feminina de vôlei pouco reclama com o árbitro e está longe de dar broncas homéricas nas companheiras de equipe. Fora dela, a situação não muda muito: atuando no exterior nas últimas quatro temporadas, a discreta atleta só passou a ser amplamente conhecida após as Olimpíadas de Pequim, quando conduziu a equipe nacional à inédita conquista da medalha de ouro na China. Até então, podia se dar ao luxo de desfrutar de um certo anonimato nas ruas, algo que hoje não mais acontece.

“Antes, só uma ou outra pessoa vinha falar comigo. Agora, o povo realmente me reconhece na rua”, conta a atleta, que está desfrutando bastante da nova fase, que coincide com sua volta ao voleibol brasileiro: até o final da próxima Superliga, ela defenderá a equipe do São Caetano/Blausiegel, ao lado das companheiras de seleção Mari e Sheilla.  “Fico muito feliz de as coisas terem acontecido dessa maneira. Até abro mão desse meu lado caseiro para poder dividir isso com as pessoas que me apoiaram o tempo todo”, emendou.  

Aos 38 anos, a levantadora que viveu boa parte da carreira à sombra de Fernanda Venturini conta com um currículo impressionante. Além dos seis títulos do Grand Prix (1994, 1996, 1998, 2004, 2006 e 2008) e das duas medalhas de prata em Mundiais (1994 e 2006), ela é a mulher brasileira com mais participações e melhor sucedida na história das Olimpíadas: ao todo: foi para os Jogos cinco vezes (de Barcelona-1992 até Pequim-2008), conquistando duas medalhas de bronze e uma de ouro. E, dizendo-se no melhor de sua forma, ainda não tem planos de parar de jogar, especialmente agora que deixou a equipe verde-amarela. Não sem antes ouvir dezenas de pedidos para ficar. Tudo em vão.

Com a medalha de ouro no peito, Fofão só quer diminuir um pouco o ritmo – em entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net, ela admitiu que está cansada depois da maratona vivida em 2008, que incluiu treinamentos desde maio com a seleção brasileira e um torneio de despedida depois das Olimpíadas de Pequim. “O lugar em que eu menos parei ultimamente foi na minha casa. A minha mala da Olimpíada ainda está lá, fechada, pois não consegui desfazê-la por conta da correria”, confessou a levantadora, que não desgruda do maior símbolo do sucesso de sua carreira. “Eu sempre carrego a medalha de ouro comigo”, afirmou.

Mas nem tudo é alegria para Fofão. Nos bastidores, a jogadora está travando uma batalha contra seu último clube, o Murcia, da Espanha, que ainda deve salários atrasados tanto para ela quanto para as também selecionáveis Walewska e Jaqueline. “Entraremos com um advogado na Justiça porque da parte deles não houve nenhuma solução”, contou.

No bate-papo, ela também falou sobre maternidade, motivação, o pós-Atenas (quando ela pensou em deixar a seleção, mas foi convencida a ficar pelo técnico José Roberto Guimarães), as derrotas do último ciclo olímpico, ansiedade na semi e na final olímpica, além da crise que se abateu sobre a seleção de 2002, vaidades e Fernanda Venturini. Entre outras coisas, revelou que não acredita que teria as mesmas oportunidades na carreira se tivesse que começar agora. “Hoje em dia a altura está pesando muito para quem começa a jogar. Acho que seria no máximo a líbero”, sorriu a atleta, de 1,73m.

Gazeta Esportiva.Net - Você ainda não decidiu quando será a aposentadoria. Mas quantas temporadas acha que o seu físico agüenta?
Fofão - Eu posso te falar que, fisicamente, nunca estive em melhor forma que agora. Me sinto muito tranqüila, sem lesão nenhuma e fico muito feliz por isso. Consegui jogar uma Olimpíada inteira sem nenhuma contusão.

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“Quando acabou a Olimpíada de 2004, eu naturalmente já achei que estaria fora da seleção. Mas depois de um tempo o Zé conversou comigo, disse que eu era importante”

GE.Net: Houve só um susto durante a preparação (no dia 11 de junho, a líbero Fabi se chocou com Fofão durante um amistoso contra os Estados Unidos. Por conta disso, a levantadora só foi estrear na terceira semana do Grand Prix)...
Fofão - Machuquei o joelho antes do Grand Prix, mas foi coisa que acontece. Lesão mesmo, graças a Deus, não houve nenhuma. Fisicamente, eu estou bem, mas agora minha carreira não vai depender do físico e sim da motivação. Esse é o fator que vai determinar o tempo que eu continuarei jogando.

GE.Net: E qual a sua motivação agora que você já ganhou praticamente tudo, em termos de clube e seleção?
Fofão - São objetivos. Eu estou voltando para São Caetano, o lugar onde comecei e a minha esperança aqui é que eu, a Mari e a Sheilla consigamos encher os ginásios. Será uma coisa bacana, pois São Caetano adora vôlei. Quero voltar ao tempo em que comecei aqui, onde sempre existia casa cheia. Isso será muito importante para mim. Tem também o fato de este ser um grupo novo, com o qual eu nunca trabalhei... Tudo isso me motiva a querer ‘algo mais’. E é dessa forma que eu dou continuidade à vontade de estar dentro de quadra.

GE.Net: Mas a sua vida pessoal também não te motiva a parar?
Fofão - Com certeza, mas agora que saí da seleção, vou ter mais tempo. Jogando só em clube, vou poder estar próxima do meu marido (João Márcio, com quem é casada há quatro anos) e terei tempo de fazer cursos que eu quero. Aos poucos, também darei espaço a outras coisas que eu não pensava em fazer.

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“Em Pequim, a maneira como o Brasil entrava na quadra intimidava os adversários. Muitas equipes, como a Rússia, baixaram a guarda”

GE.Net: Que tipo de curso?
Fofão - Ah, tudo... aperfeiçoar um pouco o inglês, culinária, coisas bobas que faz você não pensar só em vôlei. Atleta tem uma carreira muito só focada naquilo e nós temos que abrir um pouco a mente. Um erro que todo mundo comete é só viver para o esporte. Mas ainda há tempo: eu sou nova, então vou me dar a oportunidade para isso.

GE.Net: Aos 38 anos, você não fica com medo de não conseguir concretizar seus planos de maternidade?
Fofão - Eu fico tranqüila, pois o instinto materno ainda não veio para mim. Não consigo me ver mãe, ainda não tenho ‘aquela’ coisa de querer ser mãe. E não vou fazer uma coisa só porque as pessoas estão me falando que eu tenho que ser mãe por causa da idade. Isso vai vir naturalmente. Nada mais me atrapalha a pensar nisso, mas não tenho preocupação com a maternidade.

GE.Net: Mas você nunca teve vontade de fazer como a Paula Pequeno, que engravidou neste ciclo olímpico e voltou para a seleção, provando que isso não atrapalha a carreira?
Fofão - Eu vi muitas pessoas que tiveram filho e continuaram jogando. Não vou opinar sobre isso, pois cada um sabe o que faz da vida, só que eu acho que é um sofrimento muito grande. A Paula, por exemplo, passa muito tempo longe da filha, a Carol (Albuquerque) também... eu vejo o quanto elas sofrem. Não as recrimino, mas eu não gostaria disso para mim. Não queria ter um filho e continuar viajando. Já tive a oportunidade de pensar em filhos antes e deixei de lado por este motivo. Prefiro parar de jogar, ter filho e dedicar a minha vida a ele.

GE.Net: Quando você parar de jogar, já existe algum planejamento?
Fofão - Não tem como falar que eu não vou continuar no vôlei, porque esta é uma coisa com a qual eu trabalhei a vida inteira, que eu aprendi a gostar e que eu sei fazer bem. Não tenho a intenção de ser técnica, mas sim a de ensinar e trabalhar com crianças. Essa é a minha vontade, pois como pessoa pública eu posso dar uma referência para os mais jovens praticarem vôlei.

GE.Net: Depois de Atenas, você ficou fora da seleção em 2005. Foi um ano em que você pensou em deixar a equipe ou estava combinado com o Zé que você ficaria?
Fofão - Quando acabou a Olimpíada de 2004, eu naturalmente já achei que estaria fora da seleção por causa da renovação. Até estava bem preparada para isso, mas depois de um tempo o Zé conversou comigo e queria que eu participasse de uma competição...

Foto Djalma Vassão/Gazeta Press

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Carolina Canossa, repórter da GE.Net, e a levantadora

GE.Net: A idéia era essa competição ser a despedida?
Fofão - Não, a idéia era começar o meu novo ciclo nessa competição, pois ele achou que eu me enquadraria bem no que ele estava pensando para a equipe. Só que a equipe estava indo bem, entrosada e o Zé me pediu para deixar as coisas para 2006 porque não queria mexer no time com o objetivo de dar confiança e bagagem para as jogadoras que estavam lá. Então, eu já fazia parte do grupo, estava entre as convocadas, mas não presente nas competições.

GE.Net: Mas você mantinha contato com o Zé neste período?
Fofão - Sim, a gente se falava sempre. Eu estava na Itália (entre 2005 e 2007, ela jogou no Perugia) e ele e o preparador físico sempre me ligavam para saber como eu estava. Eu fazia o trabalho que eles me passavam e ficava em contato porque, independente do clube, eu era uma atleta de seleção.

GE.Net: Ele chegou a precisar te convencer a ficar?
Fofão - Depois de Atenas, era como se eu não estivesse fazendo parte da seleção. Até falei com ele que estava começando um grupo novo e não conseguiria me enquadrar no ritmo forte das meninas. Mas o Zé me disse que eu era importante, que tinha condições e que a gente administraria todo o trabalho. E foi o que aconteceu: no final, estava tão bem que fazia todas as coisas da mesma forma que elas.

GE.Net: Daí passou 2006, com o vice-mundial, e veio 2007, quando a seleção chegou muito empolgada, mas perdeu o Pan em casa. Em seguida, com você e a Walewska descansando, o Brasil não teve um resultado bom no Grand Prix e depois chegou irregular à Copa do Mundo, quando em certa ocasião o Zé levou todo mundo para a sala de imprensa depois de uma derrota para a Itália, dizendo-se envergonhado. O que houve com o grupo naquela temporada?
Fofão - 2007 foi o ano em que o time melhor se preparou. Nós fizemos um trabalho muito forte, só que as coisas não aconteceram da maneira que a gente queria. Não conseguimos nenhum título importante naquele ano. Chegamos muito perto, mas não veio. E, isso, de uma certa forma, começa a te irritar, porque você está fazendo a coisa certa e o resultado não vem. Houve um pouco de estresse em alguns momentos, o que é normal para uma equipe que quer chegar a algum lugar, mas tentávamos resolver tudo dentro do grupo, sem que as pessoas participassem. E tudo isso foi importante para nos fortalecer: vimos que o que fizemos em 2007 não foi suficiente e precisava de mais. Então, em 2008 fomos com outra cabeça e as coisas melhoraram bastante.

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“O instinto materno não veio para mim”

GE.Net: No Pan, ficaram na memória os lances em que o Brasil tinha o match point, mas as cubanas fizeram umas defesas...
(Fofão interrompe)
Absurdas...
... e depois do Pan você falava que esperava que Deus tivesse reservado algo muito bom para 2008. Você acredita que tudo o que aconteceu, com a conquista de ouro, tem um lado religioso?
Fofão - Eu acredito. Quando você trabalha com honestidade, se dedica e cumpre seus horários, vai ter um merecimento no final. E, sempre que acabava uma competição, eu me perguntava o que tinha feito de errado e o que estava faltando. Fazíamos tudo certo, mas a bola não caía mesmo em ataque sem bloqueio... Por outro lado, você tem a tranqüilidade de saber que está trabalhando e ter a certeza de que mais cedo ou mais tarde alguma coisa boa virá. A expectativa desse grupo era sempre essa, porque nós merecíamos muito. As jogadoras tinham uma garra muito grande. Quem acompanhou todas as finais que disputamos, sabe que lutamos o tempo todo. Se não ganhamos, foi porque não conseguimos mesmo, mas todos os jogos foram para cinco sets com a gente demonstrando raça. E isso nos confortava um pouco. Quando entrou 2008, falamos que esse seria o nosso ano, tanto que começamos a ‘sobrar’ em comparação a todos os times.

GE.Net: Depois do Grand Prix, muitos falavam que as outras seleções estavam escondendo o jogo e, por isso, o Brasil ganhou tão fácil. Na Olimpíada, porém, vocês continuaram ‘sobrando’. O nível dos adversários foi mais baixo que o esperado?
Fofão - Depois do Grand Prix, senti que ninguém estava acreditando muito na gente, achando que os outros times não tinham dado o máximo lá. Na época, até me perguntaram se eu achava que elas estavam escondendo o jogo e eu respondi que esperava que continuasse assim, a ponto de depois elas não acharem (o jogo delas). E foi isso o que aconteceu. Manter o padrão impecável das finais do Grand Prix era a nossa preocupação e, quando a gente chegou nas Olimpíadas, vimos que continuamos crescendo. Com isso, ganhamos uma grande confiança. Em Pequim, a maneira como o Brasil entrava na quadra intimidava os adversários. Muitas equipes, como a Rússia, baixaram a guarda. As outras equipes não conseguiram jogar além do que estavam acostumadas, só que isso aconteceu mais por nosso mérito e seriedade. Tivemos muita presença em quadra e fomos agressivas. Isso fez muita diferença.

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“Quem acompanhou todas as finais que disputamos, sabe que lutamos o tempo todo. Se não ganhamos, foi porque não conseguimos mesmo, mas tivemos raça”

GE.Net: Toda essa confiança veio através de preleções com filmes, frases, coisas do tipo, ou isso surgiu naturalmente?
Fofão - Convivemos muito tempo juntas, então temos uma amizade que não precisamos daquela coisa de se reunir e falar coisas de motivação. Foi em um ou outro dia que eu deixei uma frase para as outras jogadoras na parede, mas não temos o costume de fazer isso. A mulher é muito sensível e determinados trabalhos podem atrapalhar um pouco o lado emocional. O dia-a-dia nosso estava voltado para os jogos seguintes.

GE.Net: Quando a Logan Tom jogou a última bola para fora, você foi uma das jogadoras que mais chorou. Na Vila Olímpica, com a cabeça no travesseiro, você conseguiu saber o que faltava naquelas finais? Ou isso é uma coisa que ninguém nunca vai saber?
Fofão - Nem sei... a gente pensa em muita coisa, mas só agradece a Deus mesmo. Eu só falava: “Conseguimos, conseguimos! Nós merecíamos!”. Demorei um pouco para começar a entender o porquê de termos ido tão bem na competição inteira. Passei a ver as coisas de outra maneira e a entender que temos sempre que dar o máximo. No final, conseguimos as coisas por trabalho mesmo. Essa é a única coisa com a qual você consegue ser recompensado.

GE.Net: O Zé confessou que temeu o quinto set na final. Você também?
Fofão -
Ali, tudo era possível porque o time delas criou uma confiança muito grande quando ganhou de Cuba. Nós também não esperávamos que elas passassem pela semifinal, porque as cubanas estavam vindo no mesmo nível da gente. Eu mesmo esperava que Cuba fosse estar na final. Por isso, a nossa preocupação redobrou: quando um time ganha daquela maneira, ele vem muito mais confiante que pode ganhar da gente. Além disto, os Estados Unidos sempre acreditaram que ganhariam do Brasil algum dia. Mas, mesmo o fato de ter perdido um set, não fez o nosso grupo perder o equilíbrio. Poderia até chegar no quinto set, mas seria difícil a gente perder aquele jogo. Estávamos muito concentradas.

GE.Net: Então, pode-se dizer que a semifinal contra a China, quando o Brasil começou perdendo de 5 a 1, foi pior em termos de ansiedade?
Fofão - Contra a China, iria ser um jogo nervoso mesmo. Elas estavam em casa e muito motivadas com isso. Nossa preocupação foi grande, mas tivemos sorte porque antes de jogar contra a China, vencemos o Japão. O estilo de jogo é parecido e nós adquirimos um ritmo. Na semifinal, não conseguimos encontrar um padrão no começo e demoramos um pouco para concentrar na marcação delas. Se perdêssemos aquele primeiro set, seria muito mais difícil porque elas iriam adquirir mais confiança, jogar mais rápido... O fato de a gente ter vencido aquele set de virada abalou a confiança delas.

GE.Net: Depois da medalha de ouro, mudou muita coisa na sua vida?
Fofão - Mudou. Eu sempre fui uma pessoa muito discreta, não chamo a atenção por causa da altura. Antes, eu andava tranquilamente pelos lugares e só uma ou outra pessoa vinha falar comigo... Agora, as pessoas realmente me reconhecem na rua, sabem que eu sou, vem, conversam, muitos me abraçam... Isso não era normal antes da Olimpíada.

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“As jogadoras das Olimpíadas de 2000 dariam continuidade em 2004, mas o Marco Aurélio Motta começou a se desfazer destas atletas sem muita explicação. Então, preferi não fazer parte disso e pedi dispensa”

GE.Net: Você consegue se ver nessa condição de ídolo?
Fofão - De alguma maneira, nós viramos ídolos, exemplo para as pessoas. Tem gente que vem nos agradecer por ter conseguido uma medalha para o País, por ter dado esse orgulho a elas. Isso vai ficar gravado na memória de todo mundo. Por algum tempo, fizemos parte da rotina das pessoas que acompanharam as Olimpíadas e não temos que ter medo. É aceitar e lidar tranquilamente.

GE.Net: Mas você se preparou para ser um exemplo?
Fofão – Nunca! Tudo foi acontecendo aos poucos sem eu perceber. Sempre falei que preferia ser uma pessoa anônima, discreta, mesmo sendo jogadora, porque nunca gostei muito de chamar a atenção fora de quadra. Só que eu fico muito feliz de as coisas terem acontecido dessa maneira pelo trabalho de longos anos e até abro mão desse meu lado caseiro para poder dividir isso com as pessoas que me apoiaram o tempo todo. 

GE.Net: Por ser a mais experiente da seleção, acha que a responsabilidade pesou mais em você nas Olimpíadas?
Fofão - Eu já sabia que eu teria que assumir essa responsabilidade, independente se eu quisesse ou não. As pessoas me tinham como referência por ter mais tempo de carreira, por ser a mais velha do grupo, por tudo... Mas eu fiquei bem tranqüila quanto a isso porque eu me preparei muito tempo, adquiri experiência ao longo dos anos e tinha que passá-la para alguém. E a minha função na equipe foi essa.

GE.Net: Você chegou a falar com a Carol Albuquerque, sua sucessora na seleção, dar alguma dica a ela?
Fofão - Com a Carol era diferente já que ela tinha a intenção de sair depois das Olimpíadas porque queria ter mais um filho. Era uma decisão na qual a gente não podia interferir muito e eu só fiquei sabendo mesmo que ela continuaria depois que acabou os Jogos. Fiquei muito feliz porque acho que ela tem condições de continuar o trabalho com o Zé. Ela deve aproveitar essa chance porque tem bagagem suficiente para isso.

GE.Net: Mas ela já tem 31 anos. Acredita que siga até o final do ciclo olímpico que está começando agora?
Fofão - Se ela estiver motivada e com as coisas dando certo, acho que a Carol consegue chegar tranquilamente em Londres-2012. Tudo vai depender da motivação que ela tiver dentro da seleção.

GE.Net: A seleção campeã olímpica foi a melhor na qual você já jogou?
Fofão - A seleção de 1996 era uma seleção que, individualmente, tinha muito talento, com várias jogadoras que poderiam decidir uma partida. Na minha opinião, uma das melhores que o Brasil já teve. Só que a seleção de Pequim foi um time no qual existiu um grupo muito forte. E, a partir de momento em que você não depende só de uma jogadora, o grupo se fortalece muito mais.

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"Estou voltando para São Caetano, o lugar onde comecei, e a minha esperança é que consigamos encher os ginásios"

GE.Net: Falando em outras Olimpíadas das quais você participou, como foi jogar em Sidney-2000 contundida (Fofão estava com problemas nos dois tendões de Aquiles)?
Fofão - Aquela Olimpíada foi difícil porque eu poderia ter os meus dois tendões rompidos a qualquer momento. Tanto que nem participei dos dois primeiros jogos, o que foi muito difícil por ser a minha primeira Olimpíada como titular. Eu jogava o tempo todo com medo. Até que meu corpo esquentasse, não conseguia fazer os movimentos naturalmente porque o meu psicológico estava bloqueado para proteger o meu tendão. Todos os movimentos eram pensados e é difícil jogar dessa maneira. Após cada jogo, agradecia por ter conseguido, mas não sabia se conseguiria jogar no seguinte. Fui levando desse jeito até o final. Por isso, não ter sentido nada em 2008, foi uma glória.

GE.Net: Dois anos depois, houve um momento de crise com o Marco Aurélio Motta, no qual você e outras jogadoras mais experientes da seleção pediram dispensa por não concordar com os métodos de trabalho dele. Qual o aprendizado desta fase?
Fofão - Lutamos por um direito que eu acho que a gente tinha. Eu não entraria nesse dilema se não fosse algo que eu concordasse. As jogadoras das Olimpíadas de 2000 dariam continuidade em 2004, tinham essa bagagem, mas ele começou a se desfazer destas atletas sem muita explicação. E eu não achei isso certo, pois deveria existir um pouco de respeito com o trabalho que estava sendo feito. Lógico que ele tem a opção de chamar as jogadoras que quiser, mas não perdendo um ciclo que poderia dar continuidade, pois ter experiência em Olimpíada é muito importante. Então, preferi não fazer parte, pedi dispensa e outras jogadoras foram no mesmo caminho.

GE.Net: Mas essa fase até teve um lado bom, pois atletas como Paula Pequeno, Sheilla, Sassá, campeãs com você agora, ganharam rodagem internacional...
Fofão - Eu não posso influenciar o trabalho de um técnico, mas se não concordo com uma coisa, não preciso fazer parte. Respeito o que ele quis fazer, outras jogadoras realmente tiveram oportunidade de jogar, mas eu não concordava da maneira como foi feito. Não entro no mérito dessas jogadoras, mas não queria fazer parte daquela filosofia.

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"Eu e a Fernanda Venturini trabalhamos vários anos juntas e sempre existiu um respeito muito grande. Mas não somos grandes amigas"

GE.Net: Continuando neste aspecto de renovação, você acha que faltou um pouco de foco na renovação das levantadoras, visto que a Carol, que vai ficar no seu lugar, também já passou dos 30?
Fofão - Eu e a Fernanda estivemos à frente da seleção durante muitos anos e, apesar de muitas atletas também terem se revezado na posição, nenhuma conseguiu se firmar. Pode ser um erro não ter dado a chance de outra levantadora estar participando mais de perto, mesmo se fosse só para treinar e ver o esquema de uma seleção. Agora, temos que correr atrás do tempo para treinar alguém e assumir essa posição.

GE.Net: Todo mundo fala que mulher trabalhando com mulher é complicado. Time feminino tem muita vaidade?   
Fofão - Na seleção de Pequim, cada uma tinha seu temperamento, com dias bons e outros não. É difícil lidar com mulher, pois cada uma das 12 tem uma cabeça e é preciso chegar a um denominador comum para que cada um a sua maneira tenha o seu pensamento. E, para um técnico, isso é muito difícil, pois você tem que saber como fala, como lidar com a mulher... Tem que entender muito de aspectos fora dali para ter esse feeling dentro de quadra. Tem jogadora que leva uma bronca e se fecha de tal jeito que não rende mais. Para tirar o melhor de cada, o técnico não pode ser tão melindroso.

GE.Net: Na atual seleção, ninguém se destaca muito mais que a outra em termos de aparecer na mídia. Mas, nas gerações anteriores, era uma atleta que tirava foto, outra que era a musa... Isso atrapalhou o desempenho das gerações de Atlanta-1996 e Sidney-2000?
Fofão - Isso sempre existiu porque as pessoas cobravam uma musa e existia aquela concorrência interna de querer aparecer e se mostrar mais. É um erro, pois somos atletas e temos que nos destacar jogando. Só que era uma coisa que fugia do controle porque ninguém obrigava você a não ser musa. Cada uma optava se queria ou não ter esse papel. Inclusive na seleção que ganhou o ouro começaram a querer fazer essa coisa, mas graças a Deus isso não pegou porque todo mundo abriu mão. Veio de cada uma não aceitar coisas que pudessem tirar a atenção.

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“A Olimpíada de Sidney foi difícil porque eu poderia ter os meus dois tendões rompidos a qualquer momento. Eu jogava o tempo todo com medo”

GE.Net: Como é a sua relação com o Bernardinho, com quem você ganhou os bronzes de 1996 e 2000?
Fofão - É tranqüila. A gente se encontra, conversa numa boa. Somos amigos, ele é meu padrinho de casamento... Não tenho problema nenhum.

GE.Net: E com a Fernanda Venturini?
Fofão - Também. Não somos grandes amigas, de ficar se ligando, mas respeitamos uma a outra.

GE.Net: É que muita gente acha que vocês não se gostam...
Fofão - Isso é da cabeça das pessoas. Trabalhamos muitos anos juntas e sempre existiu um respeito muito grande. Nunca saímos juntas ou passeamos por conta de não termos intimidade, pois eu tenho outras amigas dentro de quadra.

GE.Net: Mas nunca te incomodou ficar tanto tempo na reserva dela? Não batia um medo de você não a suceder?
Fofão - Quando comecei, eu tinha pouca bagagem como levantadora. Não poderia ter pressa, pois não estaria preparada para assumir uma seleção. Precisava rodar um pouco mais. Se houvesse menos tempo, talvez que não tivesse condição de continuar...

GE.Net: Oito anos não é tempo demais?
Fofão - Sim, é tempo demais, mas no meu caso eu aproveitei para tirar vantagem e aprender, melhorar. Não foi tempo perdido. Penso que amadureci muito para estar preparada quando chegasse a minha hora.GE.Net: Quem é a sua melhor amiga do vôlei?
Fofão - Me dou muito bem com a Fabiana, somos praticamente irmãs. E também com a Walewska, que foi minha companheira de quarto por muitos anos. Além disto, tem outras jogadoras que passaram anteriormente e sobrou a amizade.

GE.Net: E a melhor jogadora que você já viu atuar?
Fofão - Fora do Brasil, eu gosto muito da Taismary Aguero. Tive a oportunidade de jogar com ela e vi que é uma atleta que faz uma diferença incrível. Do Brasil, são todas as campeãs olímpicas (risos).

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“Eu, como levantadora, dou preferência à habilidade do que à altura”

GE.Net: Você é muito tranqüila em quadra. O que faz a Fofão perder a cabeça no jogo?
Fofão - Quando o árbitro me dá dois toques (risos). Tem situação que até aceito, mas quando não é eu perco um pouco a cabeça. Mas logo volto ao normal porque é muito difícil eu me alterar.

GE.Net: Nem com as provocações das cubanas?
Fofão - Ah, elas provocam, inclusive as mais novas. É uma escola que elas têm e eu não posso perder a cabeça porque sei que as meninas, se fossem provocadas, iriam para cima. Era eu quem controlava isso e, se eu me irritasse... Como capitã, também tinha que chamar a atenção do juiz para não deixar aquela situação continuar.

GE.Net: Qual a importância do Zé Roberto para você?
Fofão - Na história da minha vida, ele é muito importante porque foi o técnico que me ensinou a levantar. Ele que me incentivou e me mostrou o que se faz para ser uma boa levantadora.

Você tem apenas 1,73m. Acha que, se começasse hoje no vôlei, teria as mesmas oportunidades?
(sorri) Eu seria, no máximo, a líbero. Começando agora, eu teria que ter um diferencial muito grande porque, hoje em dia, a altura está pesando muito. Até faz a diferença mesmo e o próprio time do Japão sente isso com a levantadora. Só que muita gente é prejudicada com essa coisa da altura. O talento está mais nos baixinhos. Um atleta alto até se trabalha, mas poucos têm ‘aquele’ talento natural. As próprias ponteiras do Brasil não têm uma média grande de altura, mas possuem uma habilidade que muitas altas de outros países não têm. Eu, como levantadora, dou preferência à habilidade do que à altura.

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