Em uma recente filmagem em São Paulo, o ator e modelo Alexandre Bari surpreendeu uma colega com os seus conhecimentos linguísticos. “Que tatuagem bonita esta no seu pé, o desenho de um lema em japonês. Significa sucesso”, ele observou. A mulher ficou boquiaberta com o comentário daquele sujeito de olhos nada puxados: “Como você sabe disso?”.
A resposta estava justamente no “sucesso” que Bari teve em sua antiga profissão. Antes de se engajar definitivamente na carreira artística, ele havia trabalhado de forma pioneira como intérprete de técnicos e jogadores estrangeiros em clubes japoneses durante mais de duas décadas. Passou por Nagoya Grampus, no qual auxiliou os consagrados treinadores Arsene Wenger e Carlos Queiroz, entre outros, e Urawa Reds, time defendido por atacantes brasileiros renomados como o hoje comentarista Edmundo e o corintiano Emerson Sheik.
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A longa trajetória no futebol asiático, no entanto, não acabou com os sonhos de Bari de seguir outro caminho profissional. Ao contrário. No final de sua jornada como tradutor, já desgastado por algumas brigas com comissões técnicas do Urawa Reds, ele teve a chance de voltar a atuar – como fazia quando jovem. Entre comerciais e programas televisivos, acabou convidado para participar de uma telenovela que retratava a chegada do empreendedor norte-americano Henry Ford ao Japão.
A decisão de abandonar o futebol não foi fácil. Desde a adolescência, Alexandre Bari se dividia entre os palcos e os campos. Descendente de italianos, foi lateral direito das categorias de base do Palmeiras (clube de coração da família) entre 1978 e 1979. E ouvia do ex-jogador Mococa, já naquela época, um conselho: “Você está jogando bola para quê? É bonito, fotografa bem e coisa e tal. Deveria ser modelo”.
Bari não deu os primeiros passos na carreira artística somente nas passarelas. No início da década de 1980, ele integrou o elenco do filme “Asa Branca: um sonho brasileiro”, interpretando o personagem Pita. Os mais conhecidos Edson Celulari, Eva Wilma, Walmor Chagas, Gianfrancesco Guarniei e Rita Cadilac também participaram do longa – que, curiosamente, narra a história de sucesso de um jogador de futebol.

De fato, a “inveja” sentida pelo pai Eddie e o “medo” pela mãe Eneida, receosa com as experiências de parentes que foram jogadores e até árbitros de futebol, não prenderam Alexandre Bari no Brasil. Ainda mais encorajado depois de uma tentativa fracassada de jogar nos Estados Unidos, o jovem seguiu para o Japão disposto a se destacar no time da Universidade de Tokai, ao sul de Tóquio.
Quando chegou ao seu destino, Bari encontrou uma série de adversidades. Conheceu alguns japoneses que jogavam futebol melhor do que brasileiros, para a sua surpresa, e sofreu com a adaptação à comida e com a falta de dinheiro. “No primeiro ano, encontrei alguns produtos que nunca tinha visto no Brasil, mas que não podia comprar. Eu parava diante das vitrines de materiais esportivos e me sentia como um mendigo”, contou, dizendo-se ainda vítimia de discriminação.
“Havia jogadores que olhavam torto para mim, apesar de o técnico ser meu amigo. Um dos períodos mais complicados foi quando estávamos concentrados em uma montanha, que não tinha nada. Era só treinar, comer e dormir. Fiz aniversário lá. Quando telefonei para a minha mãe, não consegui abrir a boca para falar nada. Eu só chorava de um lado. Ela, do outro. Não deveria ter ligado, mas eu estava sozinho e era meu aniversário de 25 anos. Aquele 17 de agosto de 1984 foi o dia mais triste da minha vida”, lastimou.
Para piorar – ou melhorar – a situação, Bari torceu o tornozelo em um treinamento e ficou meses impedido de jogar. Escutou algumas insinuações de que “estava de sacanagem”, porém aproveitou o período livre para compreender melhor os japoneses. Reforçou as aulas de idioma: oito horas de estudo por dia útil da semana e quatro aos sábados. “Eu tirava 9,6, em média, nas provas do curso. Ficava p... porque os coreanos tiravam 10! O que esses caras tinham? Mas, para eles, o japonês era mais fácil. Para quem fala português, é complicado se acostumar à gramática, ao verbo no fim da frase. Você acha normal dizer ‘eu brasileiro sou’? Só, que com um ano de prática intensiva, dá para ficar craque em japonês”, comentou.

Dessa forma, enquanto Zico colaborava para intensificar as idas de jogadores brasileiros para o Japão, Alexandre Bari passou a fazer a sua parte para que os seus compatriotas tivessem estadias menos tortuosas no país asiático. “Acho que ainda não havia ninguém fazendo esse trabalho de intérprete de futebol lá, sabia? O esporte nem era profissional. Foi um começo difícil. Até a gente se acostumar com a tradução... Porque as pessoas fazem política, mentem, e você fica no meio de tudo isso. Se alguém está de sacanagem, o tradutor fica sabendo logo e pega raiva do cara. P..., isso estressa. No primeiro ano, eu ia dormir morto.”
O técnico Júlio Espinosa foi responsável por fazer Bari perder algumas noites de sono. “Quando ele acertou contrato com o Toyota, combinou que seria por US$ 5.000 mensais com impostos. Mas, na hora de acertar com os caras da grana, disse que tinha pedido o salário livre de taxas. Ficou a palavra do diretor contra a dele. E eu tenho certeza de que os japoneses ficaram com aquela dúvida: será que o Bari traduziu direito? No fim, o dirigente disse que o erro era dele. Bom... O Espinosa foi esperto, não é?”, constatou. “O cara era malandro. Mas sem fazer mal para ninguém. Quer dizer... Aí, já não sei. Ele até dizia que era primo do Valdir Espinosa para ganhar moral. E não tem nada a ver!”, gargalhou.
O próprio Bari chegou a se desentender com Júlio Espinosa, que foi medalhista de prata das Olimpíadas de Los Angeles-1984 como auxiliar de Jair Picerni na Seleção Brasileira e ainda passou por clubes como Santos, Internacional, Bahia e Vitória. Durante um yakiniku (uma espécie de churrasco japonês), o treinador teria sugerido para seu tradutor: “Vou dar umas meias novas para o Bari, que está sempre com as suas furadas”. O intérprete se irritou na ocasião: “Quer dizer que eu era amigo só nas horas boas, filhão? Podia falar o que fosse para mim, então? Era difícil trabalhar com ele. O Espinosa tinha um monte de defeitos, assim como eu”.
A mais desagradável experiência de trabalho Alexandre Bari com um técnico ocorreu em 2001, no Urawa Reds. “Briguei feio com o Tita”, contou, referindo-se ao comandante que foi jogador do Flamengo na década de 1980. Segundo o intérprete, o ex-atleta desconfiava que as suas traduções eram errôneas. “Ele não conseguia entender que as palavras são mais curtas em japonês. E, se alguém fala ‘vamos, vamos, vamos’, eu só preciso traduzir uma vez ‘vamos’. Mas o Tita era muito desconfiado, paranoico. E não só comigo. Era com todo mundo”, disse.
Incomodado, Tita ordenou inicialmente que Bari trocasse o terno e a gravata que estava acostumado a vestir para trabalhar por agasalhos do clube. “Por mim, tudo bem. Pode ser doidice ou frescura, mas é o cara quem manda. Não adianta reclamar”, aceitou inicialmente o tradutor. “Mas, depois, ele também pediu que eu parasse de ler jornal após as reuniões da comissão técnica. Tudo isso ele falava por meio de recadinhos. Mais tarde, fui impedido de bater bola com os jogadores. Eu sei o que o Tita estava querendo. Como ele não gostava de mim, começou a procurar pretextos para me mandar embora.”
A indisciplina de Bari custou o seu posto no Urawa. Sem emprego, ele se apegou à amizade que construíra com os jogadores para tocar a vida no Japão. Passou a morar com o atacante Tuto, vizinho à casa de Emerson Sheik. “Foi uma época difícil, mas interessante”, definiu.
Se o relacionamento do tradutor com os técnicos de seu time não era tão amistoso, com os atletas sempre foi o melhor possível. Ele chegava a ensiná-los a paquerar as mulheres asiáticas em japonês. “Mas era fácil ganhar as japonesas. Se você for estrangeiro, então, está no papo. Não precisa nem saber falar muito o idioma. Apesar de que eu não gostava tanto do corpo das orientais. As brasileiras são mais sexy”, sorriu o intérprete, que também se dava bem com os jogadores japoneses do elenco. Alguns deles, por exemplo, vibraram quando o profissional lhes explicou como pronunciar em português o nome do órgão sexual feminino.
De volta ao Brasil, Bari superou o relacionamento fracassado com uma modelo gaúcha com a ajuda de terapia e iniciou a sua readaptação a São Paulo. Achou graça quando notou que comidas japonesas viraram moda no País. Ficou feliz por ter menores gastos e estar mais perto de pais e antigos amigos. Já pensou até em, além de atuar, enviar o seu currículo para emissoras de televisão ou para o próprio Corinthians de Emerson Sheik para voltar ao Japão em dezembro como tradutor durante o Mundial de Clubes. Mas não quer ser intérprete por um longo período. Ele prefere agora interpretar. Seja na companhia da atriz com a palavra “sucesso” tatuada no pé ou do Antônio Fagundes brasileiro.
