O atacante Emerson não deu preocupação apenas para zagueiros adversários durante a sua passagem pelo Japão. “Os tradutores que trabalharam com ele antes de mim não aguentaram. É um cara difícil”, cochichou o hoje ator e modelo Alexandre Bari, localizado em São Paulo pela Gazeta Esportiva.net para também contar algumas das confusões que o Sheik protagonizou no Urawa Reds, de 2001 a 2005.
Intérprete dos profissionais estrangeiros que estavam no clube japonês naquele período, Bari participou diretamente de muitas das polêmicas de Emerson. Afinal, ele era o encarregado de traduzir para os asiáticos as opiniões nem sempre amistosas do agora atacante do Corinthians. “Algumas coisas eram tão problemáticas que os dirigentes do Urawa começaram a pedir para eu tomar cuidado na hora de fazer a tradução para o Emerson. Mas eu teria que mentir?”, sorriu.
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Emerson, ao contrário, não se importava nem um pouco em falar a verdade para os seus superiores – sempre com o auxílio de Alexandre Bari. Quando o técnico holandês Hans Ooft assumiu o comando do Urawa Reds, por exemplo, o Sheik já havia adiantado que não teria paciência para esperar a completa recuperação de uma lesão: “Quero jogar, meu!”. O técnico ainda tentaria argumentar: “Recupere a sua melhor condição física antes. É melhor assim”. Na lembrança do tradutor da equipe, o brasileiro mostrou toda a sua autoconfiança na tréplica: “Vou jogar nessa p... e não quero nem saber! Com uma perna só, sou melhor do que todo mundo aí!”.
As cobranças pelo desrespeito à determinação de Hans Ooft não recaíram sobre o Sheik. “Que nada. O holandês chegou até mim e perguntou se o Emerson estava sabendo do que ele havia ordenado – também não entendo o medo que ele tinha de falar diretamente com o atleta. E eu confirmei que sim. É claro que eu havia traduzido direito para o Emerson. Ele estava ciente”, ratificou. “E você acha que houve punição? Um cara bom como o Emerson faz o que quer. Com o Tite, também deve ser assim. Se ele começa a jogar e a resolver em campo, você acaba relevando tudo.”
Emerson, de fato, foi decisivo para o Urawa – tanto quanto é no Corinthians atualmente. Sob a liderança de Hans Ooft, ele ganhou a eleição de melhor jogador do Campeonato Japonês em 2003 (conquistou a artilharia da competição no ano seguinte), apesar de seu time ter acabado a temporada apenas na sexta colocação. Além de se enfeitar com correntes, anéis e brincos, ele ainda vestiu um smoking para receber a premiação na festa de fim de ano da J-League. E quase saiu de lá com um novo e caro relógio no pulso.
Os japoneses, no entanto, não entenderam muito bem o humorado pedido do Sheik a Okada. “Como era a minha primeira vez na festa da J-League, eu estava muito nervoso. Acabei não ouvindo o que o Emerson tinha dito para o técnico e deixei de fazer a tradução. Mas todo mundo sabe o que é Rolex, seja em japonês, em português ou em qualquer outro idioma. Ficou chato para mim”, lamentou Bari. Depois do evento, o atacante reclamou: “Bari, por que você não falou para eles o negócio do Rolex?”.
Uma falha de comunicação também culminou em uma briga em que Emerson e Bari estavam do mesmo lado. Desta vez, quem se irritou com a dupla não foi um holandês ou um japonês – mas sim um brasileiro. “O Toninho Cerezo ficou muito bravo com a gente”, contou o intérprete. Na última rodada do Campeonato Japonês de 2003, o Kashima Antlers de Cerezo enfrentou o Urawa Reds com a necessidade da vitória para impedir o título do Yokohama Marinos. Vencia por 2 a 1 até o último minuto de jogo – quando o Sheik marcou o gol de empate e correu para o banco de reservas para comemorar efusivamente com o seu tradutor.
Em alguns dos jogos do Urawa, quem se enervava era o próprio Emerson. A birra do atacante (um ferrenho crítico do STJD brasileiro) com os tribunais esportivos já existia naquela época. “Uma vez, ele deu uma cotovelada no adversário na frente do bandeirinha. Para os japoneses, isso é complicado. O cartão vermelho foi mostrado na hora. Se você é expulso assim no Japão, precisa dar depoimento aos comissários de arbitragem logo após a partida. Eles ouvem o jogador e já determinam a punição em seguida”, explicou Bari, que nem imaginava o tamanho do problema que estava por vir.
Dentro do ônibus do Urawa Reds, Emerson avisou que não prestaria esclarecimentos pela cotovelada: “Não vou p... nenhuma na comissão! Dane-se!”. Bari omitiu os palavrões, com um sorriso tímido, ao traduzir o posicionamento do jogador a um diretor do Urawa Reds: “Olhe, ele falou que não vai até lá...”. O dirigente entrou no veículo onde estava o elenco para tentar convencer o Sheik a mudar de ideia. A situação piorou. “Bari, fale para esse filho da p... que não saio daqui. E ainda vou dar um soco na cara dele!”, berrou o atleta.
Emerson não era o único a dar trabalho para Alexandre Bari. Em 2003, o Urawa Reds teve uma dupla de ataque explosiva: Edmundo, o Animal, foi contratado para ser o companheiro do Sheik. “Mas os caras se davam muito bem. Não tive dificuldades, até porque o problema deles não era comigo. O Edmundo é tranquilão, e eu sabia lidar com o Emerson”, minimizou o intérprete. “Lembro-me só de um episódio em que o Edmundo estava de cabeça quente e desabafou um monte de coisas na entrevista, contra técnicos e dirigentes. Perguntei se ele tinha certeza que queria aquilo traduzido, pois repercutiria mal. Ele autorizou.”
Mas Bari também tinha seus artifícios para evitar problemas. Experiente, o intérprete aconselhava técnicos e jogadores antes de entrevistas e tomava a liberdade de deturpar algumas situações. Quando algum treinador lhe pedia para que espionasse a conversa de um grupo de atletas brasileiros, por exemplo, ele aceitava à sua maneira. “Você não pode dizer que não vai, mas também não deve dedurar ninguém. O jeito é inventar uma história no meio do caminho, e pronto. Todo mundo fica contente”, sorriu, lembrando da inteligência do Sheik nesses casos. “Tenho certeza de que ele entendia bem o japonês. Como eu estava traduzindo, preferia ficar na dele. Mas certamente compreendia tudo o que estava acontecendo e usava isso a seu favor.”
Palmeirense, Alexandre Bari também tem em Emerson um motivo para acompanhar o Mundial de Clubes com um pouco mais de carinho neste ano. “Eu estava no Japão e fui ver o jogo quando o meu Palmeiras perdeu para o Manchester United, em 1999. Mas não sou tão fanático assim. Só não queria que o time caísse para a Série B. E também não fico torcendo contra os rivais. Tomara que o Corinthians faça uma boa campanha no Mundial, apesar de ter que tomar cuidado até com o representante japonês. Em 2007, o nosso Urawa já foi terceiro colocado, dificultando o jogo para o Milan”, alertou. “A experiência do Emerson no Japão pode ajudar. O Danilo também jogou lá, mas não era nem titular. Foi uma espécie de curingão, desses que entram no segundo tempo. O estilo dele é lento e tem mais a ver com o futebol brasileiro. No Corinthians, é um p... jogador. Já o Emerson era o cara lá e continua sendo aqui, filhão!”, reverenciou.
Os japoneses também já estão ansiosos com o retorno do “cara” que se destacava com só “uma perna”, cobiçava o Rolex dos técnicos adversários e provocava os seus próprios comandantes ao usar toda a sua coleção de joias para treinar. Querem saber se Emerson Sheik voltará a traduzir suas confusões em gols. “Na última vez em que estive no Japão, eles me perguntaram muito se o Emerson poderia viajar para lá. Ele teve problemas jurídicos, pagou algumas multas, mudou de nome para adulterar a idade... Os japoneses não aceitam isso. O Maradona, por exemplo, não pode entrar no país”, advertiu Alexandre Bari. “Bom, já sabe: se aparecer uma nova lesão no Emerson e ele não viajar, pode ser por causa desse entrave”, interpretou.
