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Para Tite, Alexandre Pato só não vai melhorar “se for muito burro”

Marcos Guedes e Helder Júnior São Paulo (SP)

Tite recebeu Paolo Guerrero no Corinthians pouco após a conquista da Copa Libertadores do ano passado. Apesar da desconfiança inicial do peruano, construiu-se rapidamente entre eles uma relação sincera e decisiva no triunfo alvinegro no Mundial poucos meses depois. Com Alexandre Pato, que não soube usar a cabeça como o autor dos gols contra Al Ahly e Chelsea, foi muito diferente.

Tite não vai vender apartamento

“O Guerrero é um guerreiro na acepção da palavra”, afirmou o treinador, explicando por que foi tão fácil a adaptação do centroavante ao clube do Parque São Jorge. Como o cara que viria a ser o herói preto e branco no Japão já tinha a característica mais admirada pelos corintianos, bastou ao treinador pedir-lhe paciência.

“Ele é um jogador com sangue, competitivo, e entrou em um grupo com tratamento igual. No início, quando ainda não era titular, veio conversar comigo: ‘Professor, no que eu posso melhorar?’. Respondi: ‘A primeira coisa que você deve ter é calma para que a gente possa explorar todo o seu potencial’. Ele deve ter pensado: ‘Será que esse cara está me enrolando, está de sacanagem comigo?’. Mas ele entrou, começou a fazer gols e permaneceu”, contou Tite.

Mais do que botar bolas na rede, o camisa 9 mostrou – apesar de uma técnica muito superior – um estilo que Geraldão já havia provado ser um caminho direto ao coração da Fiel. Na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2012, ele sofreu um estiramento no ligamento colateral medial do joelho direito. Dez dias depois, estava em campo em Toyota.

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Para Tite, Alexandre Pato tem de se moldar ao Corinthians, algo bem mais fácil para Guerrero
“Ele estava machucado, e eu me lembro de que foram entrevistar um jornalista peruano. ‘Guerrero machucado? Isso não é problema. Ele vai se recuperar e vai estar pronto para jogar. Guerrero é guerreiro’, respondeu o cara. Isso é muito forte”, recordou, em entrevista à Gazeta Esportiva, o técnico que está de saída do ainda atual campeão mundial.

Alexandre Pato foi apresentado um mês depois. A condição física era justamente a grande questão em torno de um atleta com uma técnica reconhecidamente apurada. De lá para cá, não houve nenhuma contusão mais grave, mas a tal técnica diferenciada não apareceu com frequência, e a identificação com o clube foi uma realidade bem distante.

“A característica é outra. O Guerrero tem a competitividade estampada na cara dele. O Pato tem a qualidade técnica como marca maior. E é isso o que eu falo para ele: ‘Você precisa ter a sensibilidade de se adaptar ao seu clube’. O Corinthians é competitivo, o Corinthians é Zé Maria, o Corinthians é sujar o calção. O Corinthians é cortar o supercílio, colocar uma bandagem e levar à loucura o torcedor que está na beirada do campo”, vibrou.

Tite estava se referindo à final do Campeonato Paulista de 1979. O Super Zé ficou com a camisa completamente manchada, o que contribuiu para alimentar seu mito, muito mais calcado em sua raça do que em sua boa técnica. Pato ainda parece não entender por que Super Zé é Super Zé, mas há quem acredite que essa compreensão esteja perto de acontecer.

“Esse tempo de adaptação e a cobrança farão o atleta se educar. O técnico fala, o companheiro fala, o empresário fala, a imprensa fala... E, assim, ele vai aprendendo. Já está adaptado ao meio social e saberá o que deve fazer para ganhar espaço, com um pouquinho de inteligência. Não é difícil. Talento ele tem. Finalização ele tem. Cabeceio ele tem. Só falta o mais fácil. Ele sentiu queimar a carne agora. É por isso que acredito na evolução dele”, afirmou seu treinador nos últimos 12 meses.

Divulgação/Agência Corinthians
Tite teve seus momentos de impaciência, mas diz ver em Alexandre Pato "um menino inteligente"
Em nenhum momento a carne queimou tanto quanto na eliminação alvinegra na Copa do Brasil. Na última batida da disputa de pênaltis contra o Grêmio, nas quartas de final, Pato fez uma tentativa desastrosa de cavadinha que acabou nas mãos de Dida e tirou o Corinthians da competição. Duas semanas depois, ele não inventou no pênalti que deu a vitória sobre o Fluminense e se julgou em alta: “Quem me vaiou está me aplaudindo”.

Alexandre Pato chegou a atirar a camisa corintiana no chão e botar a mão na orelha, pedindo reconhecimento. Não era um sinal de humildade após um erro que gerou cobranças em todos os níveis, mas, ainda assim, Tite viu em toda a situação uma oportunidade de crescimento que não foi desperdiçada.

“Aquilo do Grêmio foi um marco importante, sim. Se ele tiver o mínimo de inteligência, vai perceber que precisa arrastar a bunda no chão e competir. O Pato é um menino inteligente, que deve reconhecer a cara do Corinthians. Não temos que esperar que o clube se molde à gente. Temos que nos moldar. Ele pode fazer isso sem ferir suas características, sem perder qualidade”, disse o gaúcho. E vai fazer? “Só não vai ver isso se for muito burro!”

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