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JOGOS NA CHINA | ![]() |
Pequim-2008 - Na Ásia, um sonho polêmico
A escolha foi feita em duas fases. Na primeira, dez cidades apresentaram candidatura para o evento: Bangcoc, Pequim, Cairo, Havana, Istambul, Kuala Lumpur, Osaka, Paris, Sevilha e Toronto. Somente cinco passaram no crivo inicial do Conselho Executivo, em 28 de agosto de 2000: Osaka, Paris, Toronto, Pequim e Istambul. Após várias visitas de comitês do COI, novos relatórios e uma apresentação detalhada do projeto, os chineses venceram a disputa com 56 votos (haviam recebido 44 na primeira fase) contra 22 para Toronto (dois a menos que na etapa anterior), 18 para Paris (15), 9 para Istambul (17) e nenhum para Osaka, que recebeu seis na primeira fase. Cobiçada como mercado consumidor internacional, a China será o terceiro país asiático a organizar o evento. Antes, apenas Tóquio, no Japão, em 1964, e Seul, na Coréia do Sul, em 1988, conquistaram este direito. Há 20 anos, o empenho sul-coreano acabou esmaecido pelo doping do velocista canadense Ben Johnson. O episódio virou ‘a lembrança’ dos Jogos, que atraíram 8.391 atletas de 159 países. Pequim apresentou um projeto orçado em US$ 2,3 bilhão (corrigido para 1,1 bilhão de euros) para superar seus adversários na corrida pelas Olimpíadas. Instalações modernas, como o Estádio Olímpico, o popular Ninho de Pássaro por seu design, têm atraído parte significativa do interesse nos preparativos. A lista de novas instalações inclui ainda o Centro Aquático e o Parque Verde, além de reformas em unidades já existentes. Como parte do legado social olímpico, está a melhora no sistema de transporte (no caótico trânsito chinês), incluindo novas linhas de metrô. Se o lado prático é um aspecto positivo, a iniciativa já apresentou problemas. Em 2006, durante as escavações, foi descoberto um sítio arqueológico milenar no caminho por onde passará o metrô, dando início a um impasse sobre o que deverá ser feito para preservar a história sem comprometer o calendário olímpico. No ano seguinte, o desmoronamento de parte de um túnel, com a morte de quatro operários, chamou atenção para as condições de trabalho dos envolvidos nas obras. Apesar da vitória incontestável na eleição, o projeto chinês nunca esteve a salvo de críticas. Para as entidades de direitos humanos, a postura repressiva do Governo chinês desqualifica o país para eventos internacionais. Isso porque, socialmente, a China vive uma realidade singular. No final dos anos 70, sua economia passou a aceitar investimentos estrangeiros em áreas específicas, obtendo grandes lucros. A parte social, contudo, permaneceu inalterada com vários pontos de tensão dentro e fora do país. O Tibet é um dos pontos mais delicados. Em 1950, a China invadiu a região de tradição budista e que considera o Dalai Lama, não reconhecido pelos chineses, como a verdadeira autoridade nacional. Desde então, as relações mantêm-se tensas. Para a comunidade internacional, uma das principais preocupações em relação aos Jogos chineses diz respeito à ausência de tradição democrática. Rumores de que o trabalho da imprensa seria controlado geraram protestos, respondidos pelo Comitê Organizador de Pequim com a garantia de que não haverá repressão. Mas o acesso livre à internet (totalmente controlada na China) continua sendo uma preocupação. Os turistas também se incomodaram com a proibição de artigos religiosos, restrições ao uso de bandeiras e faixas com mensagens religiosas e/ou políticas. Em contrapartida, a organização garante que a Vila Olímpica terá um espaço ecumênico para celebrações, mas admite veto aos seguidores da Falun Gong, proibida na década de 90, e da japonesa Verdade Suprema, responsável pelo ataque com gás Sarin no metrô em 1995. Estes não terão direito a manifestação. Isso porque a China não os considera religiões, mas seitas. A lista de temores não pára no aspecto humano. A poluição ambiental é outro fator alarmante. Relatório do Programa Ambiental das Nações Unidas criticou a poluição da cidade onde, de acordo com a entidade, os índices ultrapassam o limite estipulado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). É o preço do progresso acelerado e descontrolado. “O uso abusivo de carvão, a localização geográfica da cidade e um número crescente de veículos motorizados atrapalham a renovação do ar de Pequim”, explica um integrante do braço ambientalista da ONU, Eric Falt. “A qualidade do ar é um grande problema”, admitiu o presidente do COI Jacques Rogge durante uma de suas visitas. O médico Michael Krzyzanowski, membro da ONU, afirmou que a baixa qualidade do ar pode provocar ataques de asma. A famosa chuva ácida (provocada pela emissão de dióxido de enxofre) também voltou a assombrar os organizadores. No combate à poluição foram implantados programas para melhorar o ar na região. Entre as iniciativas, o Governo testa um sistema de rodízio de quatro dias para tirar 1,3 milhão de veículos das ruas. Fábricas instaladas nas imediações da cidade foram desativadas e produtos químicos poderão ser utilizados para provocar chuva, colaborando na dispersão dos poluentes. A expectativa governamental é reduzir em 40% as emissões de gás carbônico e outros componentes tóxicos para a atmosfera. A situação é tão grave que ameaça interferir no nível da competição. Como se não bastasse, os ‘modos’ do povo chinês provocam o torcer de narizes pelo mundo. O Governo tem patrocinado iniciativas ‘educativas’, tentando combater hábitos como cuspir e jogar lixo no chão, além do costume de furar filas. Todas estas atitudes serão punidas com multas e fiscalizadas de perto por policiais. O mesmo é válido para as vaias (sim, aquela manifestação duvidosa, mas bastante freqüente durante os Jogos Pan-americanos). O Governo avisou que torcedores pegos com este tipo de atitude poderão ser multados e até presos. De todas as medidas anunciadas, a mais comum foi a criação de cursos de inglês para combater o incompreensível ‘chinglish’ e facilitar a comunicação com os turistas. Na prática, para a população, os Jogos de Pequim tornaram-se a primeira promessa de liberdade desde os traumáticos protestos na Praça da Paz Celestial, em 1989. Ainda que se saiba que depois tudo voltará a ser como antes. |
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