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09/05/2008
Montagem sobre fotos Gazeta Press

Pronto para estréia, Mano busca espaço na história do Corinthians
Por Luiz Ricardo Fini

Foto acervo /Gazeta Press
Mano: time está pronto para seu maior desafio

Os jogadores que compõem o atual elenco do Corinthians terão a chance de colocar seus nomes na história do clube. Esta é a opinião do técnico Mano Menezes, que também quer ser lembrado eternamente pela Fiel como o profissional que conduziu o Timão de volta à elite do futebol nacional.

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, o treinador detalhou o que espera de sua equipe na disputa da Série B, que começa na tarde deste sábado, contra o CRB. Mano Menezes avisa que espera contar com o apoio da Fiel em todos os cantos do Brasil, mas sabe que a torcida corintiana costuma ser bastante incisiva também nas cobranças.

Adaptado à capital paulista, apesar de ainda sofrer com o trânsito da cidade, Mano lembrou que será preciso ter tranqüilidade para o Corinthians repetir a trajetória do Grêmio e voltar à elite nacional. Confira abaixo a entrevista exclusiva, na qual Mano também expressa sua opinião sobre esquema tático e ações de marketing do Timão.

 Quando você assumiu o Corinthians, disse que levar o clube de volta à primeira divisão seria o maior projeto do futebol brasileiro em 2008. O time está preparado para o desafio?
Somos uma equipe e precisamos estar preparados para encarar o desafio. Caminhamos bastante nessa primeira etapa do trabalho, mas eu sempre digo que você só sabe se está pronto quando começa o campeonato e a equipe apresenta os resultados que você espera. Vamos começar a ver a partir de sábado, quando estrearemos contra o CRB. Temos uma boa equipe, usando como parâmetros Paulista e Copa do Brasil. De um modo geral, o comportamento foi bom. Jogamos mais de 20 partidas até agora e perdemos cinco. Mesmo no momento da derrota, foi possível sentir um equilíbrio emocional da equipe para ela estar preparada para o jogo seguinte.

Nas prévias da Série B, o Corinthians se saiu bem. Perdeu apenas um jogo (contra o São Caetano) em oito que disputou contra adversários que terá na Segundona. Isso serve de parâmetro para a Série B?
Sim. Os adversários vão mudar, mas nós também mudamos. Todo mundo espera fazer alguma alteração para melhor. Nós evoluímos para melhor, conseguimos contratar alguns jogadores que aumentam as alternativas para eu trabalhar a parte tática. E também houve um crescimento técnico.

Mas ainda é precipitado dizer que o Corinthians é favorito?
Teoricamente, o Corinthians é favorito porque tem mais tradição, mas isso não resolve mais no futebol brasileiro. Ninguém está como favorito ainda. Nós estamos vendo há bastante tempo que clubes com menor tradição estão ocupando espaço com base no trabalho, na organização e no planejamento bem feito. É isso o que queremos para o Corinthians nesse ano. A parte boa até agora é que nós conseguimos conduzir o trabalho da forma que entendemos que deve ser. Sabíamos que, na medida em que os resultados não acontecessem na primeira etapa, voltaria muito daquela pressão ao Corinthians e isso poderia atrapalhar a evolução do trabalho. Mas nós conseguimos passar bem por tudo isso, sem tantos sobressaltos. Tivemos pequenos resultados negativos. Não chegamos entre os quatro no Paulista, mas por uma posição, por dois pontos. Não foi fracasso ou desastre, e sim um insucesso.

Você acha que a tradição do Corinthians pode fazer com que surja o rótulo de que são todos contra seu time na Série B?
Eu não diria que todos estarão contra o Corinthians, mas é óbvio que o jogo contra nós será especial para a maioria deles. Para alguns, nem tanto, como as próprias equipes que estão vindo da Série A e estão mais acostumadas a jogar contra o Corinthians. Mas, em termos de motivação para a maioria dos adversários, será um jogo especial e teremos de estar preparados para sempre enfrentar um adversário muito motivado do outro lado. Mas temos de ter nossa motivação, que é estar no Corinthians tentando fazer parte de uma equipe que está tentando sua volta à Série A. Se conseguirmos, todos farão parte da história do Corinthians.

Como você já havia adiantado, o Corinthians não repetiu contra o São Caetano aquela atuação brilhante que teve contra o Goiás, mas, mesmo assim, conseguiu a vitória e consolidou o esquema 4-4-2. Você encontrou o molde tático do Corinthians?
Minha idéia desde o início era buscar uma formação mais ou menos dentro dessa realidade dos jogos que estamos fazendo. Tivemos que passar por um outro estágio mais seguro, que requeria mais cuidados para que a equipe não tivesse sobressaltos prejudiciais. Agora, estamos em uma situação diferente e nossos jogadores já estão mais bem preparados fisicamente e tecnicamente. Eles já têm um maior entendimento do que a equipe precisa fazer. Evoluímos e já podemos jogar com uma característica que eu gosto, que é trabalhar mais à frente na criação, produzindo mais ofensivamente porque é necessário tomar mais a iniciativa. As outras equipes vão propor mais um jogo defensivo e temos de saber conviver com isso. Por isso, é preciso ter uma capacidade de criação boa na parte ofensiva. Melhoramos bastante nesse aspecto.

Falando em cima dessa tática, Herrera se encaixou como o homem-gol do Corinthians ou o clube ainda precisa de um centroavante?
Essa questão do centroavante é um pouco mais de posicionamento. Como a equipe passou a jogar com mais pelos lados, com a entrada do Lulinha, o homem de referência não precisa cair tanto pelos lados. Portanto, a chegada dele na área fica mais forte. E nós temos outro jogador que na armação das jogadas também tem facilidade de entrar na área, que é o Diogo Rincón. A equipe começou a se completar também com essas novas alternativas, e o Herrera cresceu em função da equipe. Geralmente, o homem de finalização depende mesmo da equipe.

Lulinha voltou a jogar bem agora e você tem várias opções para o setor. Ele criou um problema para sua cabeça?
A melhor coisa que pode acontecer para um treinador é ter esse tipo de problema, com os jogadores crescendo e dando alternativas de alto nível. O mais difícil é quando começa a optar pela eliminação. Eu já esperava esse crescimento dele porque ele vinha mostrando qualidade. É um jogador que tem um campo de evolução muito grande em termos de maturidade. Em determinados momentos, ainda conduz a bola em demasia e, para um meia, isso é um pecado porque facilita a marcação. Essa é uma questão de maturidade que só a continuidade vai dar, mas é importante que a gente vá respeitando o futebol.

A Série B é diferente da Copa do Brasil, em que cada jogo é uma decisão no Morumbi e tem de encher as arquibancadas para apoiar. Qual é a importância da torcida do Corinthians nessa disputa por pontos corridos?
Talvez, a maior equipe do futebol brasileiro seja o fator local. A importância da torcida é minimizar o fator local (no campo adversário). Quando você estiver fora de casa e a torcida comparecer para equilibrar e até superar a presença dos donos da casa, você tira do adversário essa vantagem e passa a ter um jogador a mais. Eu tenho certeza de que isso vai acontecer, baseado naquilo que nossa equipe fizer para que a torcida tenha confiança de ir a qualquer lugar do Brasil.

Você disse que a equipe precisava de uma postura mais cautelosa no início do campeonato, mas alguns torcedores acharam que estava faltando coragem. Você se considera retranqueiro?
Não tem nada a ver com preferência de jogar, era uma necessidade no momento. O esquema foi uma estratégia para passar por aquele momento com uma relativa segurança e estabilidade. É diferente, por exemplo, se o São Paulo apresentar algumas oscilações no Campeonato Paulista. Não acontece nada porque todo mundo sabe que o São Paulo tem uma grande equipe e um crédito para gastar. O Corinthians não vivia essa situação, eu precisava montar uma equipe. E não existe coisa pior para montar uma equipe do que sofrer derrotas. Você não consegue fazer e, às vezes, nem consegue dar continuidade ao trabalho porque tudo passa a ser questionado. Como técnico, eu tinha de ter a sensibilidade de entender o momento que iríamos atravessar e dar a segurança para que os jogadores recuperassem a confiança. Mesmo que não tenha sido brilhante, a equipe disputou a classificação até o último momento e conquistou resultados importantes, que foram apontando para o torcedor que o trabalho estava no caminho certo. Parece que, pela atitude da torcida nos últimos jogos da Copa do Brasil, essa equipe já tem uma identidade com a maneira de jogar que o torcedor gosta de ver.

Apesar da eliminação no Paulista, o Corinthians está chegando tranqüilo à Série B. É uma situação diferente da de outros clubes que chegaram à Série B, como o Palmeiras e o próprio Grêmio. Surpreende essa chegada light do Corinthians na semana da Segundona?
Nós chegamos com tranqüilidade para o início da Série B porque fizemos o resultado contra o Goiás. E confirmamos essa ascensão diante do São Caetano. No futebol, você pode cuidar de todos os detalhes, mas os resultados continuam sendo parte fundamental para ter confiança e tranqüilidade na condução do trabalho. Se não tivéssemos eliminado o Goiás e nem vencido o São Caetano, certamente ainda entraríamos com uma certa desconfiança e teríamos de provar no início da Série B que a equipe está preparada.

Apesar dessa tranqüilidade do time, alguns jogadores não emplacaram. Suárez, Valença, Lima e Rafinha tiveram poucas oportunidades, enquanto o Marcel não agradou a torcida. Alguém errou nas contratações ou está dentro do normal?
Eu diria que está superando as expectativas do futebol porque você, quase sempre, erra em 20% ou 30%. Nós contratamos muitos jogadores, foi necessário fazer uma alteração muito grande e isso é para quem analisa futebol com imediatismo. Se for ver com mais razão, você vai ver que alguns jogadores realmente nem tiveram oportunidades e não se pode dizer que eles foram um erro. No futebol, você compara jogador com jogador. Só vou colocar o Cristian Suárez ou o Valença quando Chicão e William não forem bem, mas os dois estão muito bem. É importante a manutenção da equipe e dar continuidade a uma formação mais titular para passar segurança aos jogadores. E os outros estão trabalhando para tentar recuperar um espaço que foi ocupado primeiro.

Qual é a característica da torcida do Corinthians?
É uma torcida de extremos, que lota o estádio onde o Corinthians vai jogar. Coloca 51 mil pessoas nas oitavas-de-final da Copa do Brasil. Na semana seguinte, 46 mil pessoas. Faz de tudo para apoiar sua equipe. Da mesma maneira e na mesma proporção, ela cobra. É esse equilíbrio que nós temos de ter como personagens, para sabermos nos comportar exatamente em cima desses dois extremos. Não podemos nos deixar empolgar muito quando vencemos e também não devemos deixar os jogadores se sentirem derrotados eventualmente com um resultado negativo.

Recentemente, alguns integrantes da principal torcida uniformizada do Corinthians se reuniram com membros do departamento de futebol, mas você não compareceu. Acha que treinador não deve se reunir com torcedores?
Eu não sou radical em nada na vida. Acho que, em determinados momentos, você pode conversar com as pessoas, principalmente com as bem-intencionadas. O que não pode é a todo momento inverter os papéis dentro do clube porque criaria uma desorganização. É preciso haver confiança com as pessoas que dirigem porque, se receberam esse papel, é porque o clube entendeu que elas têm condição. É normal ter cobrança e não estamos esperando que não haja. Pelo contrário, no futebol você é cobrado o tempo inteiro, mas, com tranqüilidade, certamente será feito o trabalho aqui no Corinthians.

Você não descarta então possíveis conversas no futuro com torcedores?
Eu sou uma pessoa de diálogo e não vejo problemas em conversar com pessoas certas e bem-intencionadas, mas não gosto de exposição dos profissionais, indo a lugar público e pichar um muro. Isso nunca ajudou. O que eu aprendi no futebol até hoje é que, apesar de o jogador ter muito músculo e estar bem preparado, ele também tem sua fragilidade como pessoa. No momento em que não está tão bem, o que você pode fazer para que recupere logo essa condição é apoiar e mostrar o caminho para fazer com que ele tenha confiança de jogar o futebol que já mostrou em outros lugares. No estádio, quando você paga o ingresso, cobra e vaia depois do jogo para mostrar que não está satisfeito. Mas, no dia-a-dia do trabalho, é bom mostrar que está sempre do lado para ajudar mesmo quando as coisas não estão tão boas porque a equipe ficará mais forte.

Você falou em conversar com pessoas bem-intencionadas, mas como medir se a intenção é boa ou não?
Acho que internamente o clube sabe. O clube conhece sua vida, suas pessoas e com quem você pode falar ou não pode. São coisas internas que devem ser resolvidas internamente.

E você disse que a torcida do Corinthians é de dois extremos. Como lidar quando o extremo está do lado do protesto?
Eu acho que nosso torcedor exige um comportamento bastante claro do jogador, que é a doação dentro de campo e a briga pelo resultado. Ela até entende limites técnicos, mas quer que o jogador seja aquele que lute pelo resultado. Precisamos ter esse comportamento. Não podemos achar que só doação e transpiração resolverão o jogo, pois precisamos de qualidade de equipe e trabalho, mas nossa equipe precisa ser moldada com essa característica. E também acho que o jogador, de um modo geral, tem de se preocupar mais com sua postura profissional, como o que fala e da maneira como se comporta em uma negociação, ou como seu agente conduz uma idéia futura de transferência. Se isso for tratado abertamente e no momento errado, cria uma animosidade gratuita entre torcedor e jogador. Por isso, a cada falha ou resultado negativo, o torcedor vai cobrar diretamente do jogador porque pensa que ele já está com a cabeça em outro lugar.

Os clubes estão se preocupando atualmente em modernizar seus departamentos de marketing. O Corinthians também está fazendo várias campanhas. A TV Timão, por exemplo, já expôs uma parte de sua preleção para quem quisesse ver. Isso influencia seu trabalho?
Eu acho isso natural na evolução do futebol, mas é preciso estabelecer alguns limites porque você expõe a equipe e os profissionais. Na medida em que coloca algumas imagens do dia-a-dia do atleta, você veicula um jeito de o jogador de ser, mas nem sempre é isso que acontece na hora do jogo. Às vezes, pode haver uma confusão entre o momento de lazer e o de responsabilidade que o jogador precisa ter dentro do jogo. Todo cuidado quanto a isso é bom para não criar problema. O objetivo disso é arrecadar mais e, assim, poder investir no futebol para ter o que o torcedor quer, que é uma equipe forte para conquistar títulos. Não tivemos problemas de maiores reclamações, está sendo bem conduzido.

Outro ponto mais delicado dessa questão de marketing é a Timão Tur, que colocará torcedores ao lado de jogadores nos mesmos vôos do clube. Você acha isso temeroso, já que não terá o alambrado para dividir os dois lados?
Na prática, sempre foi assim. Os clubes brasileiros sempre viajam em vôos de carreira e nunca tivemos isolamento em relação aos torcedores. Não vejo maiores problemas quanto a isso.

O Corinthians teve problemas voltando de Porto Alegre no ano passado. Você não acha que corre o mesmo risco?
Não existia o Timão Tur e teve esse episódio. Então, isso não está a salvo em lugar nenhum, vai depender sempre da postura de cada pessoa. Vejo com normalidade.

 E o que você acha de o Corinthians mandar alguns jogos aqui no Parque São Jorge?
Precisamos dar uma melhorada em nossa estrutura para fazer jogos aqui. A própria condição do nosso gramado dificultaria o jogo. Precisamos melhorar um pouco este aspecto e cuidar também da questão da segurança. Temos de dar condição para nosso adversário chegar aqui e não passar por algumas coisas que eu já passei com o Grêmio na Série B, de torcedor jogar coisa na delegação. Poderia ser um problema para perda de mando de campo. Temos de cuidar disso para fazer com responsabilidade, mas a direção do Corinthians tem condição de fazer e certamente só vai resolver com todos esses requisitos. E nós vamos jogar aqui.

Já a camisa roxa gerou protestos. Você acha que teve conseqüências no campo?
É uma realidade dos clubes criar alternativas para vender material. A arquibancada respondeu o que pensa da camisa roxa. Fomos jogar no Morumbi no dia em que era para ser a estréia da camisa e a arquibancada estava toda roxa. Em Campo Grande, foi a mesma coisa. O torcedor do Corinthians gostou, mas também é natural que alguns não gostem por entenderem que deva ser mais tradicional, mantendo o preto e o branco. É a democracia.

Você não acha que tenha sido uma confusão desnecessária a criação dessa camisa roxa?
Sinceramente, não acho. O Corinthians, de vez em quando, tem uma confusão, e temos de estar preparados. Como todo clube de massa, convive com essas situações com mais freqüência que os outros.

Está tendo mais confusão do que você esperava?
Está tudo bem tranqüilo e espero que a gente continue respondendo bem como equipe para que o torcedor sinta essa confiança, que é fundamental para que ele continue participando no decorrer da temporada.

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