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26/05/2008
Foto: AFP

Kuerten pára, mas deixa ‘feliz saudade’
Por Felipe Held, especial para a GE.Net

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Além dos resultados surpreendentes, o carisma de Guga fora das quadras ajudaram a popularizar o tênis

O próprio Gustavo Kuerten admite que a sua carreira fantástica o surpreendeu. Tricampeão de Roland Garros, líder do ranking de entradas da ATP durante 43 semanas e melhor tenista brasileiro de todos os tempos, o catarinense foi um dos grandes nomes do circuito durante o final dos anos 90 e início dos 2000. E sua aposentadoria após a edição deste ano do Aberto da França deixará saudades, mas não tristeza.

Guga “mostrou para o Brasil que tênis se joga com raquete”, metaforizou Jorge Lacerda, presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), em entrevista à reportagem da Gazeta Esportiva.Net em 2007. E conseguiu colocar termos como break point, slice, backhand, smash e Grand Slam no vocabulário do grande público.

Quando faturou seu primeiro título no saibro de Paris, em 1997, Kuerten ainda obteve algo que parecia impossível para o tênis brasileiro: ser líder de audiência até na TV aberta. Mais do que isso, Guga ainda serviu de exemplo e inspiração para um grande número de garotos, que passaram a dar suas primeiras raquetadas após assistirem ao Manezinho da Ilha brilhar nas quadras pelo planeta.

“Acho que a minha carreira foi além das expectativas”, admitiu Guga, em uma de suas últimas entrevistas como profissional, durante a disputa entre Brasil e Colômbia pela Copa Davis, em abril. “Joguei torneios maiores por muitos anos. Tive algumas infelicidades com a lesão no quadril, mas tiro um saldo positivo de tudo”, disse o ex-número um do mundo, que recebeu inúmeros elogios de outros colegas de profissão.

“O Guga foi um marco, algo sem palavras e que superou toda e qualquer expectativa”, elogiou Thomaz Koch, que antes do aparecimento do catarinense era considerado o principal tenista brasileiro de todos os tempos, único a aparecer entre os 25 melhores do mundo (foi 24º). O gaúcho, no entanto, aproveitou para salientar uma outra característica única de Gustavo Kuerten: o carisma.

“Ele é um gênio, e os resultados mostram o sucesso que ele teve em quadra. Mas acho que a unanimidade dele é fora de quadra, pois é um cara que tem um carisma muito grande e vai deixar muita saudade. Preencher essa lacuna eu acho que vai ser muito difícil”, previu Koch. O técnico Ricardo Acioly concordou. “Foi uma carreira diferenciada entre os tops, e a personalidade do Guga o diferenciou mais ainda. Ele foi número um dentro e fora da quadra e todo o meio tenístico internacional reconhece isso”, complementou.

 

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Guga assumiu o topo do ranking em 2000 ao bater, em dias seguidos, os míticos Pete Sampras e André Agassi

Outro que corroborou as teses de Koch e Acioly foi o paulista Flavio Saretta, contemporâneo do catarinense no circuito e que viveu seu auge profissional em 2003, quando assumiu a 44ª colocação do ranking de entradas da ATP. “Além de ter sido um grande jogador, o Guga foi também uma grande pessoa. Cativou muita gente também fora das quadras, o que é muito importante”, destacou.

“A gente que convive com ele acaba tendo um grande exemplo de atleta, de profissionalismo, um vencedor. E um cara muito normal, muito tocável para a gente. Não é um ídolo de quem ninguém consegue chegar perto, mas um vencedor, que nos fez acreditar que é possível chegar onde ele chegou”, acrescentou Saretta.

Gustavo Kuerten não só foi o melhor tenista do e um dos poucos tricampeões do Aberto da França como também conseguiu feitos notáveis: fechou o ciclo de conquistas do ‘Grand Slam do saibro’, com títulos em Roland Garros e nos Masters Series de Monte Carlo, Roma e Hamburgo. Foi o único tenista a bater, em dias seguidos, os mitos norte-americanos Pete Sampras e Andre Agassi. Ao vencer Agassi, aliás, Guga levantou a taça da Masters Cup de Lisboa-2000 e assumiu pela primeira vez o topo do ranking.

Ciente da importância do catarinense para o tênis mundial, Fernando Meligeni também não mediu elogios ao amigo. Fininho ainda colocou Gustavo Kuerten entre os maiores esportistas de uma geração de atletas brasileiros, como Emanuel, do vôlei de praia, e o velejador Robert Scheidt, ambos campeões olímpicos em suas modalidades. Mas evitou lamentar o fim da carreira profissional de Guga.

“É sempre ruim quando um atleta-referência se aposenta, e o Guga foi dentro do tênis e do esporte brasileiro o cara mais importante, o grande tenista que eu vi jogar. Da minha época, a gente teve grandes atletas no país. Vi o Robert, o Guga, o Emanuel... atletas que ganharam tudo, e cada vez que um desses caras pára não é uma tristeza, já que todo mundo pára uma hora. Mas é uma perda”, admitiu.

Saretta reforçou. “Não tem que pensar que foi uma pena o fato de o Guga ter parado. Temos que ver o lado bom, e não a tristeza. É preciso pensar muito mais com alegria e satisfação por termos vivido com um cara como ele. Quem não conhecia tênis viu o Guga jogar e eu, que joguei com ele algumas vezes, tenho orgulho disso”.

Mas a grande síntese das conquistas de Gustavo Kuerten foi feita pelo ex-tenista Francisco Costa, capitão do Brasil na Copa Davis. “O Guga na verdade mudou a história do tênis brasileiro. O mais importante foi que não apenas ele chegou lá, mas como mostrou para todo mundo que era possível. Não tínhamos a noção de que era possível, e ele conseguiu algo diferente e até inesperado para todo mundo que jogava tênis na época”, resumiu.

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