| País
de ‘gerações promissoras’, Brasil
aposta em nova safra
Por Felipe Held, especial para a GE.Net
Foto: Marcelo Ferrelli
/ Gazeta Press
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| Ricardo Mello foi o único brasileiro depois de Kuerten a conquistar um título da ATP |
O tênis brasileiro tem ouvido nos últimos meses um discurso que há alguns anos é praticamente o mesmo: “A nova safra de tenistas saindo das categorias juvenis e ingressando entre os profissionais está vindo com tudo”. Atualmente, nomes como Thomaz Bellucci, João Olavo Souza, Franco Ferreiro, André Miele, Daniel Silva, Caio Zampieri, Zé Pereira Jr. e Fernando Romboli são os mais cotados para representarem o país à altura. Mas, de acordo com alguns especialistas, é preciso ter calma.
Depois que Gustavo Kuerten chamou a atenção no circuito profissional, muito se falou que os tenistas que estavam prestes a se tornar profissionais manteriam o tênis brasileiro em um bom nível. Especialmente Alexandre Simoni, Flávio Saretta, Ricardo Mello, André Sá e Marcos Daniel. Todos conseguiram seus lugares entre o top 100 durante algumas semanas, mas não brilharam em simples como se esperava.
Em termos de ranking, quem mais se destacou foi Saretta, que em 2004 apareceu em 44º da lista da ATP. Um ano antes, o tenista de Americana havia obtido seu melhor desempenho em Grand Slams, chegando às oitavas-de-final de Roland Garros e sendo parado apenas pelo norte-americano Andre Agassi.
Mello, contudo, foi o único que obteve um título de nível ATP. Em 2004, o paulista surpreendeu nos Estados Unidos e faturou a taça do Torneio de Delray Beach, o último que o Brasil conquistou no circuito de simples. No ano seguinte, o campineiro ostentou a 50ª posição do ranking.
O mineiro André Sá, por sua vez, não chegou a finais de torneios de primeiro escalão e alcançou a 55ª colocação da lista em 2002. Alexandre Simoni, de quem muito se esperava, não passou de uma 96º lugar em 2001. O que teria faltado a essa geração tão promissora anteriormente? Para alguns, a resposta é maturidade.
“Não dá para colocar a culpa nos jogadores, que são resultado de uma série de orientações e de vivências”, analisou Francisco Costa, capitão da equipe do Brasil na Copa Davis. “Essa geração de repente não chegou tão longe como se esperava porque não teve bons exemplos”, acrescentou.
“Eles são apenas um pouco mais novos que o Guga, então não cresceram vendo-o jogar e chegaram nessa fase de 19, 20 anos com a cabeça pronta de forma equivocada. Chega uma hora em que a realidade aparece em torneios maiores e aí o cara não está preparado. Foi o que aconteceu com alguns atletas, que não estavam preparados para o que é o tênis de verdade”, complementou o ex-tenista gaúcho.
Tenista que mais demorou para embalar, Marcos Daniel só foi conseguir viver seu grande momento aos 29 anos, atingindo sua melhor locação no ranking de entradas (74º). De sua geração, ele é o único que se mantém entre os 100 melhores: é atualmente o 79º.
“Ele é um cara com seus méritos, que persistiu. Mesmo quando a carreira tomou um rumo que ele não queria, de não se adaptar ao profissional, não desistiu”, elogiou Chico Costa. “Ele continuou lutando e amadurecendo meio que na marra, jogando sozinho e enfrentando as dificuldades. A partir dos 25, 26 anos que ele conseguiu desenvolver o jogo dele e ficar preparado, e agora está no auge da carreira. É um exemplo de persistência”, complementou, antes de ser apoiado pelo ex-tenista Thomaz Koch.
“Talvez o Marcos tivesse passado por momentos em que poderia ter se exposto mais e ter ido mais à luta, mas se encolheu e só agora está sentindo talvez que esteja pronto para encarar esse desafio”, declarou Koch. Cada um tem o seu momento, fica difícil dizer que poderia ter feito isso ou aquilo. A realidade dele não era essa. Ele tinha outras prioridades, e isso acaba pesando no resultado”, emendou.
Fernando Meligeni, que assim como Daniel atingiu seu melhor ranking da carreira já com mais idade (foi 25º em 1999, com 28 anos), defendeu o gaúcho. Para Fininho, é inerente à cultura brasileira essa demora de adaptação. “O tenista sul-americano, especialmente o brasileiro, demora um pouco mais para ter esse amadurecimento e se desprender de certas coisas. Não é nenhuma crítica, mas uma realidade”, comentou.
“Isso faz com que a gente demore um pouco mais para se soltar e aparecer, é evidente. O (Carlos) Kirmayr, o Cássio Mota, o (Luiz) Nico Mattar foram tenistas que também jogaram melhor quando mais velhos. Eu mesmo fui campeão do Orange Bowl e número 1 juvenil, mas só estourei depois dos 25. Faz parte da nossa educação”, resumiu.
Força nova?
Mas e quanto à nova geração verde e amarela que desponta. Bellucci, que já desgarrou dos demais, é atualmente o melhor brasileiro no ranking: 76º. João Olavo Souza, o Feijão, também flerta em furar o top 200, enquanto nomes como Fernando Romboli, Zé Pereira Jr., André Miele, Henrique Cunha e Daniel Silva apareceram entre os dez melhores do mundo no ranking juvenil da Federação Internacional de Tênis (ITF).
Até onde essa nova safra pode chegar? O otimismo em relação aos novos tenistas é grande, mas um pedido é praticamente unânime: calma. “Temos bons valores, mas as pessoas têm que ter paciência em matéria de resultados expressivos”, comentou Acioly. “O Guga elevou muito o patamar de exigência ao ser número um do mundo, e a partir de então existe muita pressão em cima dos mais novos de já entrar no circuito e subir logo no ranking. Mas não é qualquer um que ganha um Grand Slam aos 20 anos e com ranking por volta dos 60”, prosseguiu.
Da nova safra de tenistas, um já começou a ganhar a atenção do novo público: Bellucci, que desgarrou dos demais, disparou mais de 500 posições no ranking de entradas e, aos 20 anos, disputa este ano sua primeira edição de Grand Slam, em Roland Garros. Embora talentoso e promissor, o tenista da paulista Tietê não pode ser considerado ainda o ‘salvador da pátria’.
“Não tem que se colocar nele a pressão que estão querendo colocar, pois ele ainda não está preparado para isso”, alertou Meligeni. “As pessoas têm que entender que ele ainda está em formação. Ele conseguiu coisas na frente, mas o amadurecimento não vem com o ranking. Demora um pouco”, acrescentou, aproveitando também para dar um aviso aos torcedores mais empolgados: Thomaz Bellucci não é Gustavo Kuerten.
“Estão querendo compará-lo ao Guga, mas espera aí: quando ele chegou em Roland Garros como 66 do mundo, tinha muito mais bagagem do que o Thomaz, muito mais ATPs disputados”, avisou Fininho.
Antes de faturar o Aberto da França, Kuerten havia disputado 19 torneios de nível ATP (incluindo a edição 96 do Aberto da França, o Aberto da Austrália-1997 e os Masters Series de Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Hamburgo, também de 97), enquanto Bellucci jogou apenas dois: os torneios da Costa do Sauípe e de Buenos Aires, ambos este ano.
“Pode acontecer de o Thomaz ganhar Roland Garros? Vai saber, esse mundo é tão louco, por que não? Só que uma coisa é ele ir lá, surpreender e ganhar; outra é esperar que ele ganhe. Não tem que esperar isso, mas sim que ele jogue bem. Tem que criticar se ele joga mal, e não se ele perder para um cara bom”, prosseguiu Fernando Meligeni.
Mas isso não quer dizer que Bellucci não seja um tenista de futuro promissor. Responsável por promover a estréia do jovem na Davis, em setembro do ano passado, o capitão Chico Costa aproveita para destacar uma qualidade fundamental para o sucesso do tenista.
“O Thomaz tem uma característica especial: ele é maduro para a idade que tem. Não digo quanto ao jogo, pois ele ainda tem muito a melhorar, mas a parte mental dele é muito superior à dos outros meninos. Não que os demais não tenham o mesmo potencial que ele – têm até tanto potencial quanto –, mas a maioria é muito infantil e perde muito tempo com brincadeira, com bobagem”, salientou Costa. “Ele é um garoto encara os desafios e não amarela na hora das decisões”, corroborou o xará de Bellucci, Thomaz Koch.
Enquanto Bellucci vai conquistando seu espaço, outros mais jovens sonham em obterem o mesmo sucesso do colega de quadra. “Ele já é uma realidade, que está jogando muito e com certeza irá baixar ainda mais seu ranking este ano”, previu Caio Zampieri, de 21 anos, número 362 da lista da ATP. “Trata-se de um cara que trabalhou bastante, como toda essa nossa geração. Somos uma galera que vem se esforçando muito e com certeza alguém bom vai sair desse bolo”, emendou André Miele, também de 21 anos e 388º do mundo.
Tanto Zampieri como Miele têm planos para melhorar consideravelmente suas colocações nos rankings nas próximas temporadas, e acreditam que podem disparar justamente na transição dos tipos de torneios que disputam, saindo dos futures e entrando nos challengers. De olho, sempre, nas competições de nível ATP.
“Estou planejando terminar o ano 250 ou 200 do ranking, no mínimo. Quero jogar o maior número de challengers que for possível e, assim, baixar juntamente o meu ranking”, revelou Zampieri. “Venho jogando futures e a minha idéia é de, do meio do ano para frente, entrar para torneios maiores para no final do ano estar mais perto dos 200, ou até um pouquinho mais à frente. Estou subindo com calma, sem precipitações. Não sei quando, mas espero estar entre os 50, 100 melhores do mundo. Mas tenho que esperar um pouco, pois caso contrário seria uma subida irreal”, ponderou Miele.
Por enquanto, porém, o momento do Brasil não é de encontrar um tenista que possa preencher o vazio que inevitavelmente Gustavo Kuerten deixará com sua aposentadoria, mas sim de construir uma base para que, em um futuro – talvez distante – o país volte a ter um número um do mundo.
“Pode até soar mal, mas temos que ter um pouco menos de arrogância no Brasil. Não moramos em um país que dá condições para pedirmos um número um do mundo”, criticou Fernando Meligeni. “Se o país desse todas as condições de treinos, estruturas, ajuda psicológica e financeira, poderíamos pressionar um Thomaz Bellucci a ser número um do mundo. Mas quem ajudou o Thomaz até os dias de hoje? Ninguém, só o pai dele. Como a gente vai obrigá-lo a ser número um do mundo?”, questionou o ex-tenista, que deu a ‘dica para o sucesso’.
“No tênis, você não tem estrutura ou patrocínio, é o pai que vai ter que colocar uma grana... e a incerteza faz com que fique complicado. O foco dos atletas e da imprensa não é ter um número um do mundo, mas sim ter cinco jogadores entre os 100, para depois termos dez entre os 100. Aí teremos cinco entre os 50 para depois termos dez entre os 50. E aí podemos ter dois ou três entre os dez melhores”, sugeriu. |