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26/05/2008
Foto: AFP

Legado motivacional substitui herança ‘concreta’
Por Felipe Held, especial para a GE.Net

Foto: Djalma Vassão / Acervo / Gazeta Press
Foto: AFP
Manchete de 9 de junho de 1997: Guga vira rei na França

“Guga, o Rei da França” foi a manchete que estampou a capa da edição de 9 de junho de 1997 do jornal A Gazeta Esportiva, um dia após o primeiro título de Gustavo Kuerten em Roland Garros. Na parte interna do diário, outra exaltação ao feito do catarinense, então número 66 do mundo: “A França aos pés de Kuerten”.

Quais as chances de hoje, 11 anos depois, os tenistas brasileiros voltarem a ganhar destaque dentro do próprio esporte nacional? A curto prazo a expectativa não é das melhores: o país pouco aproveitou as portas abertas pelo Manezinho da Ilha e o tênis passou por momentos delicados.

Em 2007, por exemplo, o Brasil passou grande parte da temporada sem ver um tenista sequer no grupo dos 100 primeiros do ranking de entradas da ATP. Os paulistas Flavio Saretta, Ricardo Mello, Thiago Alves e o gaúcho Marcos Daniel beiravam o top 100, mas raramente conseguiam furar a barreira e galgar posições na lista.

Após a situação preocupante, o país ensaiou uma tímida melhora ainda em 2007, iniciada pelos duplistas Marcelo Melo e André Sá. Os mineiros surpreenderam e chegaram às semifinais de Wimbledon e às quartas-de-final do Aberto dos Estados Unidos, dando destaque para o Brasil.

Agora em 2008, o experiente Marcos Daniel, de 29 anos, vive o melhor momento de sua carreira quando atingiu o 74º lugar do ranking de entradas (hoje, o gaúcho de Passo Fundo é o 79º). Pouco depois foi a vez de o jovem Thomaz Bellucci despontar, furar o top 100 e assumir a condição de número um do país e 75º do mundo.

Pouco para um país que teve o melhor do mundo e, ainda, o 25º, com Fernando Meligeni? Sim. Mas, para alguns ex-tenistas ouvidos pela reportagem da Gazeta Esportiva.Net, a situação tende a melhorar. Se o legado ‘palpável’ (com tenistas entre os 50 do ranking, centros de treinamentos etc.) que Gustavo Kuerten deixa não é o suficiente – e não por sua culpa –, o catarinense pode se orgulhar por deixar outra herança: a esperança de que é possível um tenista brasileiro obter sucesso internacional.

“Não é que o Guga não deixa legado, mas a gente poderia ter aproveitado melhor, como foi feito no vôlei e como está sendo feito na ginástica artística”, comparou Meligeni. “A herança ele vai deixar, pois os tenistas que o viram jogar, que hoje têm pouca idade ou estão chegando aos 15 anos, participaram da ‘Era Guga’”, prosseguiu.

“Isso vai fazer muito bem lá na frente pra eles, pois vai ficar na memória. Diferentemente da minha geração, que não viu o Thomas Koch e a Maria Esther Bueno jogarem. A gente achava que no Brasil era impossível um cara ser top 10, não tinha essa referência. Esses meninos hoje tiveram”, complementou Fininho.

Para Koch, que antes do aparecimento de Guga era considerado o melhor tenista masculino brasileiro de todos os tempos, a dedicação do catarinense dentro e fora das quadras não será esquecido. “Agora o pessoal se deu conta que aparecer jogador é fruto de um trabalho, mais do que qualquer outra coisa. Antes estávamos esperando que as coisas acontecessem de repente, mas hoje já há consciência de que se não houver um trabalho por trás é muito difícil”, opinou o gaúcho, ex-24º do mundo.

Discurso parecido teve Francisco Costa, que atualmente ostenta o cargo de capitão da equipe brasileira na Copa Davis. “Se (o fenômeno Guga) tivesse acontecido como na Alemanha com o Boris Becker, dirigentes, treinadores e todo mundo do tênis teriam identificado como um cara chega assim tão longe. Aqui se falou em talento, mágica e um monte de coisa; e agora, dez anos depois, é que estamos começando a ver que com ele não era nada disso, mas sim trabalho, mesmo”.

Companheiro de Gustavo Kuerten por muitos anos, Meligeni sintetizou: “O Guga vai deixar um legado muito grande, uma idéia para os jogadores mais jovens de que é possível, que pode vir um Manezinho da Ilha, sem muita estrutura e sem muita ajuda. Ele chegou onde chegou por esforços próprios, e que fique bem claro isso: com ajuda da mãe, do treinador... e conseguiu chegar ao número um do mundo”.

Materialmente, contudo, há o consenso de que a antiga direção da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) não soube colher os frutos semeados pelo tricampeão de Roland Garros. E o próprio Fininho reconhece: “Se tivesse estrutura, seria possível conseguir muito mais coisas”.

“Construir um ‘legado’ só seria possível se o nosso tênis de base tivesse estruturado para aproveitar o que o Guga trouxe, como mídia, investimentos, apelo público, mais jogadores, acréscimo nas vendas de material etc”, enumerou o técnico Ricardo Acioly. “Infelizmente faltou estrutura de organização, um plano máster que englobasse todos os setores com um objetivo claro e coeso. A coisa está melhorando, mas infelizmente ainda vamos continuar a viver de iniciativas individuais por um bom tempo”.

Saretta, que teve como melhor colocação na carreira um 44º lugar em 2003, também lamentou a falta de um espólio ‘concreto’, e não apenas abstrato. “Com certeza poderia ter sido aproveitado o bom momento do tênis brasileiro com a construção de centros de treinamentos, estrutura e patrocinadores para o esporte. Esse é o lado principal em que, na minha opinião, pecou-se”, lamentou.

O paulista de Americana, que atualmente está afastado do circuito por causa de uma fratura por estresse no braço direito, não foi apenas crítico. De acordo com Saretta, a situação ainda pode ser modificada a favor do Brasil. “Falta muito futuro para o tênis nacional, mas as coisas estão melhorando, com a ajuda da Confederação. Mas é muito difícil ter um cara do nível do Guga entro do país e, se não conseguir aproveitar, o bonde acaba passando e não adianta esperar mais”, filosofou.

Algum tenista brasileiro ainda terá a França a seus pés depois de Guga? O país gaulês ficará aos pés de algum outro representante nacional? A resposta, ao que tudo indica, só será dada pela nova geração de tenistas, que deverá superar a pouca oferta de incentivos no esporte e, como um catarinense ensinou, continuar acreditando. E trabalhando.

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