| Legado motivacional substitui herança ‘concreta’
Por Felipe Held, especial para a GE.Net
Foto: Djalma Vassão
/ Acervo / Gazeta Press
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| Manchete de 9 de junho de 1997:
Guga vira rei na França |
“Guga, o Rei da França” foi a manchete que
estampou a capa da edição de 9 de junho de 1997
do jornal A Gazeta Esportiva, um dia após o primeiro título
de Gustavo Kuerten em Roland Garros. Na parte interna do diário,
outra exaltação ao feito do catarinense, então
número 66 do mundo: “A França aos pés
de Kuerten”.
Quais as chances de hoje, 11 anos depois, os tenistas brasileiros
voltarem a ganhar destaque dentro do próprio esporte nacional?
A curto prazo a expectativa não é das melhores:
o país pouco aproveitou as portas abertas pelo Manezinho
da Ilha e o tênis passou por momentos delicados.
Em 2007, por exemplo, o Brasil passou grande parte da temporada
sem ver um tenista sequer no grupo dos 100 primeiros do ranking
de entradas da ATP. Os paulistas Flavio Saretta, Ricardo Mello,
Thiago Alves e o gaúcho Marcos Daniel beiravam o top 100,
mas raramente conseguiam furar a barreira e galgar posições
na lista.
Após a situação preocupante, o país
ensaiou uma tímida melhora ainda em 2007, iniciada pelos
duplistas Marcelo Melo e André Sá. Os mineiros
surpreenderam e chegaram às semifinais de Wimbledon e às
quartas-de-final do Aberto dos Estados Unidos, dando destaque
para o Brasil.
Agora em 2008, o experiente Marcos Daniel, de 29 anos, vive
o melhor momento de sua carreira quando atingiu o 74º lugar
do ranking de entradas (hoje, o gaúcho de Passo Fundo é o
79º). Pouco depois foi a vez de o jovem Thomaz Bellucci
despontar, furar o top 100 e assumir a condição
de número um do país e 75º do mundo.
Pouco para um país que teve o melhor do mundo e, ainda,
o 25º, com Fernando Meligeni? Sim. Mas, para alguns ex-tenistas
ouvidos pela reportagem da Gazeta Esportiva.Net, a situação
tende a melhorar. Se o legado ‘palpável’ (com
tenistas entre os 50 do ranking, centros de treinamentos etc.)
que Gustavo Kuerten deixa não é o suficiente – e
não por sua culpa –, o catarinense pode se orgulhar
por deixar outra herança: a esperança de que é possível
um tenista brasileiro obter sucesso internacional.
“Não é que o Guga não deixa legado,
mas a gente poderia ter aproveitado melhor, como foi feito no
vôlei e como está sendo feito na ginástica
artística”, comparou Meligeni. “A herança
ele vai deixar, pois os tenistas que o viram jogar, que hoje
têm pouca idade ou estão chegando aos 15 anos, participaram
da ‘Era Guga’”, prosseguiu.
“Isso vai fazer muito bem lá na frente pra eles,
pois vai ficar na memória. Diferentemente da minha geração,
que não viu o Thomas Koch e a Maria Esther Bueno jogarem.
A gente achava que no Brasil era impossível um cara ser
top 10, não tinha essa referência. Esses meninos
hoje tiveram”, complementou Fininho.
Para Koch, que antes do aparecimento de Guga era considerado
o melhor tenista masculino brasileiro de todos os tempos, a dedicação
do catarinense dentro e fora das quadras não será esquecido. “Agora
o pessoal se deu conta que aparecer jogador é fruto de
um trabalho, mais do que qualquer outra coisa. Antes estávamos
esperando que as coisas acontecessem de repente, mas hoje já há consciência
de que se não houver um trabalho por trás é muito
difícil”, opinou o gaúcho, ex-24º do
mundo.
Discurso parecido teve Francisco Costa, que atualmente ostenta
o cargo de capitão da equipe brasileira na Copa Davis. “Se
(o fenômeno Guga) tivesse acontecido
como na Alemanha com o Boris Becker, dirigentes, treinadores
e todo mundo do tênis teriam identificado como um cara
chega assim tão longe. Aqui se falou em talento, mágica
e um monte de coisa; e agora, dez anos depois, é que estamos
começando a ver que com ele não era nada disso,
mas sim trabalho, mesmo”.
Companheiro de Gustavo Kuerten por muitos anos, Meligeni sintetizou: “O
Guga vai deixar um legado muito grande, uma idéia para
os jogadores mais jovens de que é possível, que
pode vir um Manezinho da Ilha, sem muita estrutura e sem muita
ajuda. Ele chegou onde chegou por esforços próprios,
e que fique bem claro isso: com ajuda da mãe, do treinador...
e conseguiu chegar ao número um do mundo”.
Materialmente, contudo, há o consenso de que a antiga
direção da Confederação Brasileira
de Tênis (CBT) não soube colher os frutos semeados
pelo tricampeão de Roland Garros. E o próprio Fininho
reconhece: “Se tivesse estrutura, seria possível
conseguir muito mais coisas”.
“Construir um ‘legado’ só seria possível
se o nosso tênis de base tivesse estruturado para aproveitar
o que o Guga trouxe, como mídia, investimentos, apelo
público, mais jogadores, acréscimo nas vendas de
material etc”, enumerou o técnico Ricardo Acioly. “Infelizmente
faltou estrutura de organização, um plano máster
que englobasse todos os setores com um objetivo claro e coeso.
A coisa está melhorando, mas infelizmente ainda vamos
continuar a viver de iniciativas individuais por um bom tempo”.
Saretta, que teve como melhor colocação na carreira
um 44º lugar em 2003, também lamentou a falta de
um espólio ‘concreto’, e não apenas
abstrato. “Com certeza poderia ter sido aproveitado o bom
momento do tênis brasileiro com a construção
de centros de treinamentos, estrutura e patrocinadores para o
esporte. Esse é o lado principal em que, na minha opinião,
pecou-se”, lamentou.
O paulista de Americana, que atualmente está afastado
do circuito por causa de uma fratura por estresse no braço
direito, não foi apenas crítico. De acordo com
Saretta, a situação ainda pode ser modificada a
favor do Brasil. “Falta muito futuro para o tênis
nacional, mas as coisas estão melhorando, com a ajuda
da Confederação. Mas é muito difícil
ter um cara do nível do Guga entro do país e, se
não conseguir aproveitar, o bonde acaba passando e não
adianta esperar mais”, filosofou.
Algum tenista brasileiro ainda terá a França a
seus pés depois de Guga? O país gaulês ficará aos
pés de algum outro representante nacional? A resposta,
ao que tudo indica, só será dada pela nova geração
de tenistas, que deverá superar a pouca oferta de incentivos
no esporte e, como um catarinense ensinou, continuar acreditando.
E trabalhando. |