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26/05/2008
Foto: AFP

Número 1 do Brasil, Bellucci confessa surpresa com disparada
Por Felipe Held, especial para a GE.Net

Foto: Fernando Pilatos / Gazeta Press
Foto: AFP
Bellucci passou pelo quali e vai disputar Roland Garros

Ali, na colocação de número 582 do ranking de entradas da ATP, aparecia em 1º de janeiro o nome de um jovem brasileiro de 19 anos desconhecido do grande público e fãs do tênis: Thomaz Bellucci, nascido na cidade de Tietê, interior de São Paulo. Na época, Thiago Alves era o melhor representante nacional na relação, aparecendo no 105º lugar.

Com a disputa de alguns futures, o tenista foi pouco a pouco galgando algumas posições na lista. Em julho daquele ano, surpreendeu nos challengers de Bogotá e Cuenca e foi vice-campeão dos dois torneios. O resultado veio no ranking, e Bellucci apareceu entre os 300 do mundo.

Em setembro, quando aparecia em 248º, foi convocado pela primeira vez para defender o Brasil na Copa Davis, no duelo contra a Áustria, fora de casa, na repescagem pelo Grupo Mundial. Embora a superfície do confronto fosse o carpete e seu rival fosse Jurgen Melzer, 42º do ranking, Bellucci jogou de igual para igual com o adversário e perdeu honrosamente, por 3 sets a 0 por triplo 6/4.

O tenista de Tietê manteve o ritmo de ascensão e, já no início de 2008, com 20 anos, entrou para o grupo dos melhores 200 do mundo e estreou em torneios de nível ATP em fevereiro, na Costa do Sauípe, onde foi eliminado já na primeira rodada. Uma semana depois furou o qualifying do Torneio de Buenos Aires, aplicou duplo 6/4 no austríaco Werner Eschauer e chegou às oitavas-de-final, quando foi eliminado pelo argentino Juan Ignacio Chela, 25º do ranking, também por 6/4 e 6/4.

Uma semana depois, de volta a um evento menor, Bellucci conseguiu seu primeiro título, no Challenger de Santiago. O momento de maior contato do ascendente tenista com a torcida brasileira foi em abril, quando disputou o Zonal Americano com a Colômbia, novamente pela Davis, na cidade paulista de Sorocaba.

O paulista de Tietê entrou em quadra para abrir o confronto com Santiago Giraldo e saiu na frente com 2 sets a 0. Em decorrência do forte calor na cidade interiorana, Bellucci cansou e permitiu a virada do colombiano, que sacramentou 3 sets a 2 com 6/7 (6-8), 4/6, 6/3, 6/4 e 6/2.

Dois dias depois, em 13 de abril, bateu Carlos Salamanca por 2 a 0 com 6/4 e 7/5 na quinta partida e deu início a uma campanha fantástica: em um mês, Bellucci faturou os challengers de Florianópolis, Tunis (na Tunísia) e Rabat (no Marrocos), furou o top 100 e conseguiu ranking para entrar automaticamente na chave principal de Wimbledon.

Ainda em maio, Bellucci chegou às quartas-de-final do Challenger de Bordeaux, na França, e conseguiu dois feitos grandiosos: 18 vitórias consecutivas e, de quebra, o posto de número um do Brasil, chegando ao 75º lugar e superando Marcos Daniel, então 77º. Agora, após furar o quali de Roland Garros, a jovem promessa começa a ser mais vista pelos fãs de tênis e a gerar uma expectativa de o país voltar a viver um bom momento na modalidade.

O paulista de Tietê começou no tênis “pequenininho, batendo bola com os pais que também jogavam”, mas começou os treinamentos aos nove anos. Canhoto e um jogador de “bom saque” e “mais de saibro”, como ele mesmo se definiu, atualmente o melhor tenista do Brasil é treinado por Leonardo Azevedo desde outubro.

Direto da França, Bellucci concedeu uma entrevista exclusiva por telefone à Gazeta Esportiva.Net e confessou ter queimado etapas de seu planejamento para a temporada. Além de garantir que a pressão de ser o número um do Brasil não pesará ou influenciará sua carreira, o brasileiro ainda deixou claro que seu objetivo no momento é ganhar experiência. Quando às Olimpíadas de Pequim? “O que vier é lucro”, sintetizou.

Foto: Marcelo Ferrelli/ Gazeta Press
Foto: AFP
Para o novo número 1 do Brasil, ainda é difícil prever até em que posição do ranking ele pode chegar

Gazeta Esportiva.Net: Em menos de um ano e meio, você subiu nada menos do que 507 posições no ranking de entradas da ATP. A que você credita essa sua ascensão?
Thomaz Bellucci: Teve o amadurecimento, e o fator técnico também me ajudou bastante. O Leonardo Azevedo me ajudou bastante a entender o circuito e o jogo, e fisicamente também estou melhorando a cada dia. Foram vários fatores, que se forem somados você acaba elevando seu nível.

GE.Net: Apesar de ser número um do Brasil, você disputou apenas dois torneios de nível ATP, no Sauípe e em Buenos Aires. Que análise você faz do seu desempenho nessas duas competições?
Bellucci: Foram experiências novas para mim e muito boas. No Sauípe não joguei bem e fiquei um pouco nervoso por jogar em casa e no primeiro ATP. Já em Buenos Aires cheguei em cima da hora porque joguei duplas no Sauípe, mas acabei ganhando quatro jogos (três no quali e um na chave), e consegui muito mais do que eu esperava. Depois disputei o quali de Viña del Mar e caí si na última rodada. Acho que foram experiências boas, com as quais você amadurece e com o tempo acaba se acostumando.

GE.Net: Até agora, você jogou apenas duas vezes com tenistas top 50: na Davis contra o Melzer e em Buenos Aires com o Chela, mas em ambos jogou de igual para igual e, coincidentemente, perdeu os sets das duas partidas por 6/4. Que lições você tirou desses confrontos?
Bellucci: Tive apenas duas oportunidades para jogar contra tenistas de alto nível, mas foram provas boas. Nessas derrotas você até amadurece mais do que se ganhasse um challenger ou um jogo bobo. O Melzer é muito bom no carpete, mas consegui fazer três sets duros e, se eu tivesse até um pouco mais de experiência, poderia ter fechado. Mas foram duas partidas que me ajudaram a ter essa arrancada.

GE.Net: E por falar em arrancada, essa sua fase de três títulos e 18 vitórias seguidas teve um motivo para acontecer?
Bellucci: Difícil explicar o motivo desse arranque, foi imprevisível. Você vai ganhando joguinho por joguinho e, quando vê, já ganhou cinco, dez. Acho que poucos jogadores já fizeram isso aí e agora, mas tenho que fazer cada vez mais. Não esperava, mas tenho que colher os frutos disso e aproveitar essa confiança para ganhar mais partidas.

GE.Net: Em que você acha que precisa melhorar para estar no auge do seu potencial?
Bellucci: É sempre preciso melhorar um pouquinho em tudo. É difícil chegar a um ponto em que não é preciso mais evoluir em nenhum aspecto. Só o Federer já é assim (risos). Mas acho que devo me aperfeiçoar fisicamente, mentalmente... acho que tudo, pois ainda sou novo. Fisicamente, não joguei muitos jogos de cinco sets e isso posso melhorar, jogando mais partidas longas para saber dosar o ritmo.

GE.Net: Furar o top 100 já no começo do ano surpreendeu você? Quais eram as suas metas para esta temporada?
Bellucci: O Leo e eu tínhamos como planejamento chegar entre os 120 ou 110 do ranking no final do ano e, em 2009, furar o top 100. Acho que a gente queimou algumas etapas este ano, mas conseguimos tudo com trabalho – e, quando você trabalha bem, acaba conseguindo mais do que espera. Esse ano foi assim, consegui quatro títulos de challengers e agora já posso jogar alguns torneios mais fortes. Vai ser bom para mim, com 20 anos, estar com esse ranking para jogar alguns ATPs, a chave de Wimbledon...

GE.Net: Outro torneio do qual você se aproximou bastante foram os Jogos Olímpicos de Pequim. A lista deve fechar entre os 80 melhores do ranking depois de Roland Garros. Você já pensa nessa vaga olímpica?
Bellucci: Na verdade, no começo do ano essa expectativa para Pequim nem existia para mim e para o Leo, pois eu estava bem longe da classificação e não tinha as Olimpíadas muito como meta. Como ganhei esses challengers agora, passei a ver que pode ser realidade. Se a vaga vier vai ser muito legal e vou ficar muito feliz, mas não está em primeiro plano. Vai ser uma experiência legal ir para lá, mas há coisas mais importantes do que as Olimpíadas para mim no momento.

GE.Net: Agora você é o número um do Brasil. Como vai ser lidar com essa responsabilidade inesperada? Pode atrapalhar?
Bellucci: Pressão pelo meu lado não tem muito, não. Tenho alguns pontos para defender ainda, pode ser que eu caia ou que eu suba no ranking. O que vier agora é lucro. Tenho que pegar muita experiência, e não dá para ficar pensando muito em ranking, que sou melhor que os outros ou que estou em primeiro ou segundo o Brasil. O que é válido mesmo é estar adquirindo experiência e jogando com caras bons. Isso vale mais do que o ranking.

GE.Net: E até onde você pode chegar?
Bellucci: Sou um cara de 20 anos e não joguei muitos torneios grandes. Difícil falar até onde você pode chegar porque ainda não vivenciei o tênis de verdade. Ainda não tenho a certa convicção de até aonde posso chegar, só o tempo pode dizer.

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